Zumbi dos Palmares: o que as fontes registram e o que é dúvida
Documentos registram a destruição do Macaco em 1694 e a morte de Zumbi em 1695. Ano de nascimento e modo da morte seguem em debate.
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Em 20 de novembro de 1695, Zumbi dos Palmares foi morto. A data aparece na maioria das fontes consultadas, e a Lei 12.519, de 10 de novembro de 2011, a usou para criar o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Mas o que os documentos da época registram sobre ele é bem menos do que o nome sugere.
Quilombo dos Palmares foi um conjunto de povoados formados por pessoas fugidas da escravidão. Esses povoados eram chamados de mocambos. O núcleo mais conhecido, a Cerca do Macaco, ficava na Serra da Barriga, no município de União dos Palmares, em Alagoas. O quilombo resistiu por décadas às tropas coloniais portuguesas.
O que os documentos registram
O ataque final ao Macaco aconteceu em 1694. A Wikipédia em inglês situa o assalto em janeiro daquele ano e cita o bandeirante Domingos Jorge Velho como comandante. Bandeirantes eram sertanistas que percorriam o interior do país.
A morte de Zumbi, em 1695, segue essa mesma sequência. Uma reportagem da Agência Brasil de 20 de novembro de 2003 e um artigo do Canaltech, de 2023, situam o fato nesse ano. Não localizamos, nas fontes consultadas, o documento original que registra a data de 20 de novembro.
Onde as fontes divergem
Nem o ano de nascimento é consenso. A Agência Brasil fala em 1665. O Diário de Pernambuco, em 2023, e a Wikipédia em inglês dão 1655. A reportagem de 2003 diz que Zumbi teria sido descendente de guerreiros angolanos, segundo a tradição.
O modo da morte também varia. O Diário de Pernambuco conta que Zumbi foi traído por um antigo companheiro, Antonio Soares, e que sua cabeça foi levada a Olinda. A Agência Brasil, em 2003, descreve a morte durante uma batalha.
O problema está na origem dos registros. A historiadora Silvia Hunold Lara, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estudou manuscritos guardados em arquivos de Lisboa e Évora, em Portugal. Boa parte são cartas e despachos enviados à Coroa portuguesa. Em reportagem da Agência FAPESP, de 2013, ela afirma: “A história contada até hoje sobre Palmares é uma história militante”.
Lei e patrimônio
A Lei 9.315, de 20 de novembro de 1996, inscreveu o nome de Zumbi dos Palmares no Livro dos Heróis da Pátria. O texto diz que a inscrição era “em comemoração ao tricentenário da morte” de Zumbi. Contando 300 anos a partir de 1695, a data cai em 1995, um ano antes da lei. Essa conta é nossa, e a lei não explica a diferença.
Em 2017, a Lei 13.433 mudou o nome do livro para Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Ele fica no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília, segundo o Senado.
A Serra da Barriga também tem reconhecimento oficial. Segundo a Agência Brasil, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) a tombou em 1985. Outras fontes dão 1986, e não confirmamos a data no site do instituto.
Em 11 de novembro de 2017, a área foi reconhecida como Patrimônio Cultural do Mercosul, o bloco de integração da América do Sul. Até então, só a Ponte Internacional Barão de Mauá e a região das Missões tinham o título no Brasil.
O que diz o Iphan: Em 2017, Marcelo Britto, do Iphan, disse à Agência Brasil que o título pode dar mais visibilidade à área. Segundo ele, “um aspecto importante é a dinamização econômica”.
O que isso significa
Os documentos sustentam três pontos. Houve um quilombo chamado Palmares, ele foi destruído em 1694, e um líder chamado Zumbi morreu em 1695. O ano de nascimento e o modo exato da morte seguem sem prova direta. Por isso, a data de 20 de novembro é um marco de memória, e as circunstâncias da morte continuam em aberto.
Como fizemos: Lemos a Lei 9.315/1996 em cópia publicada pelo Justia, porque o Planalto não respondeu na consulta, e a tramitação da Lei 12.519/2011 e o registro da Lei 13.433/2017 no Senado, acessados em 23 de outubro de 2026. Usamos reportagens da Agência Brasil (2003 e 2017), do Diário de Pernambuco (2023), do Canaltech (2023) e da Agência FAPESP (2013), além de verbetes da Wikipédia em inglês. A única conta nossa é a do tricentenário: 1695 mais 300 anos dá 1995. Não localizamos o documento original que registra a morte, e as datas vêm de fontes secundárias.
Fontes
- Lei nº 9.315, de 20 de novembro de 1996 — texto (Planalto) (texto lido em cópia do Justia)
- Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011 — tramitação e registro (Senado Federal) (acesso em 23/10/2026)
- Lei nº 13.433, de 12 de abril de 2017 (Senado Federal) (acesso em 23/10/2026)
- Quilombo dos Palmares é reconhecido patrimônio cultural do Mercosul — Agência Brasil, 11/11/2017
- Zumbi dos Palmares: a 17th century Negro leader’s death is celebrated — Agência Brasil, 20/11/2003
- Dia da Consciência Negra: quem foi Zumbi dos Palmares — Diário de Pernambuco, 20/11/2023
- História de Palmares ganha nova cronologia com análise de fontes originais — Agência FAPESP, 01/08/2013
- História de Palmares é revelada em novos detalhes por documentos originais — Canaltech, 17/01/2023
- Zumbi — Wikipédia em inglês (acesso em 23/10/2026)
- Cerca do Macaco — Wikipédia em inglês (acesso em 23/10/2026)
- Nomes de Dandara dos Palmares e Luiza Mahin vão para Livro dos Heróis da Pátria — Agência Senado, 01/04/2019



