Opinião

Dois aliados de Flávio presos; marcação de munições é 'detalhezinho' para ele

Márcio Canella, preso pela PF em 15 de outubro, recebeu de Flávio Bolsonaro “apoio integral, 100%” em abril, e a marcação de munições é outro ponto da crítica.

OpiniãoEste é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista 7 de Setembro.

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Militares da Marinha de uniforme branco em formação diante do mastro da Bandeira Nacional, na Praça dos Três Poderes, sob céu azul
Cerimônia de troca da Bandeira Nacional na Praça dos Três Poderes, em Brasília, em setembro de 2022 (foto de arquivo).Foto: Marinha do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Na quinta-feira (15), a Polícia Federal (PF) prendeu Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito no Rio. Em abril, Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, tinha dado a ele “apoio integral, 100%” na disputa pelo Senado.

Canella não é o único aliado de Flávio com problemas na Justiça. Rodrigo Bacellar (União Brasil), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), também está preso. Este texto de opinião cobra coerência na escolha de aliados e na marcação de munições.

A bandeira do Brasil traz escrito “Ordem e Progresso”. Os fatos citados foram conferidos nas fontes listadas no fim do texto.

Aliados na mira da PF

Segundo a PF, Márcio Canella é “patrono político” de uma organização ligada ao Comando Vermelho (CV). A PF afirma que o grupo movimentou mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos, por meio de postos de combustível. Em julho, Canella já tinha sido preso com um fuzil no carro. Nas reportagens consultadas, não há manifestação da defesa dele.

Segundo os investigadores, um capitão da Polícia Militar teria intermediado interesses da prefeitura de Belford Roxo com líderes do CV. A negociação previa a retirada de barricadas para obras de urbanização, em troca de menos incursões policiais. Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, foi anunciada em fevereiro como primeira suplente de Canella ao Senado. Em julho, Flávio determinou que ela deixasse a suplência.

Um padrão de aliados

Em maio de 2025, Flávio sinalizou apoio a Rodrigo Bacellar como sucessor do governador Cláudio Castro, do Partido Liberal (PL). Segundo a PF, ele teria vazado informações sigilosas da Operação Zargun e liderava o “núcleo político” do CV. Bacellar foi indiciado em fevereiro e denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por obstrução; em março, foi preso de novo por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). Seus advogados chamaram a prisão de “indevida e desnecessária”.

Flávio homenageou o PM Adriano da Nóbrega em 2003 e, em 2005, propôs a Medalha Tiradentes. A Alerj aprovou a condecoração em agosto daquele ano, quando Adriano estava preso preventivamente, acusado de homicídio. Em 2019, Flávio disse que o policial “sofria uma injustiça, reconhecida com sua absolvição”. Duas parentes de Adriano trabalharam no antigo gabinete de Flávio, segundo o JB.

A marcação de munições

Em 16 de outubro, no Jornal Nacional, Flávio foi questionado sobre o projeto que retira a marcação de munições. Ele respondeu: “Qualquer detalhezinho desse”, e disse que vai investir em tecnologia e inteligência artificial. Na versão original, o PL 3.723/2019, do governo de Jair Bolsonaro, acaba com a obrigação de marcar munições, inclusive as das forças de segurança. Em março de 2022, Flávio pressionou a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado a votar o texto depressa; a comissão adiou a votação.

O Instituto Sou da Paz analisou 31.699 cartuchos ligados ao CV, apreendidos entre 2018 e 2025. Entre os cartuchos de fábrica analisados, 40,9% eram brasileiros, e 51,9% desses tinham marca de compra por instituições militares ou de segurança pública. Nossa conta: cerca de 21% dos cartuchos de fábrica analisados têm essa marca, como mostra a tabela. Dos mais de 100 códigos de rastreabilidade das munições nacionais, só 34 foram associados a instituições compradoras.

Pouco mais de um quinto dos cartuchos de fábrica analisados tinha marca do Estado Cartuchos de fuzil ligados ao CV, apreendidos entre 2018 e 2025; percentuais sobre a base indicada

Indicador Valor Base
Cartuchos ligados ao CV analisados 31.699 Total do estudo
Cartuchos de fábrica que são brasileiros 40,9% Cartuchos de fábrica analisados
Brasileiros com marca de compra por instituições militares ou de segurança 51,9% Cartuchos brasileiros
Cartuchos de fábrica com marca de compra do Estado (cálculo próprio) cerca de 21% Cartuchos de fábrica analisados
Códigos de rastreabilidade ligados a instituições compradoras 34 De mais de 100 códigos identificados

Fonte: Instituto Sou da Paz, estudo “De onde vem o tiro?” (2018 a 2025), via Poder360. Cálculo próprio: 40,9% × 51,9%. Elaboração: redação.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em entrevista à TV Globo, em 16 de outubro, ele disse ter sido surpreendido pelas prisões de Canella e Bacellar. Afirmou que as pessoas têm direito de se defender e que quem tem envolvimento comprovado com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho “tem que pagar dentro da lei”.

Os dados mostram um padrão: aliados com processos na Justiça e um projeto que tira a obrigação de marcar munições, tema que Flávio chamou de “detalhezinho”. Nas fontes consultadas, nenhum documento liga Flávio pessoalmente ao CV. Em 15 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve, por unanimidade, a remoção de um post que fazia essa ligação. Canella e Bacellar seguem em processos, e o PL 3.723/2019 não tem desfecho nas fontes consultadas.

Pesam a favor de Flávio a vaquinha que chegou a R$ 871,7 mil para famílias de policiais, em novembro de 2025. Pesa também o voto a favor do projeto antifacção, aprovado por 64 a zero em dezembro de 2025; não localizamos o registro nominal desse voto. Esta é a opinião do autor: defender a ordem é cobrar a escolha dos aliados e a rastreabilidade das munições. No domingo (25), o eleitor de direita pode decidir se concorda.

Como fizemos: Usamos reportagens publicadas entre maio de 2025 e outubro de 2026, a sessão do TSE de 15 de outubro de 2026 e o estudo do Instituto Sou da Paz sobre cartuchos apreendidos entre 2018 e 2025, acessados em 21 de outubro de 2026. Os percentuais do estudo vêm de uma coluna do diretor do instituto no Poder360, porque o PDF não pôde ser lido. A proporção de cerca de 21% é cálculo nosso: 40,9% × 51,9%. A vaquinha muda ao longo do dia, e usamos o painel de 3 de novembro de 2025. Os dados não mostram como ocorreram todos os desvios, e a defesa de Canella não se manifestou nas reportagens consultadas.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que Bacellar era o candidato planejado do PL, que a maior parte da munição de fuzil do CV era brasileira e que metade tinha sinais de desvio do Estado. O correto: Bacellar é filiado ao União Brasil e foi apontado como sucessor de Cláudio Castro, do PL; 40,9% dos cartuchos de fábrica analisados eram brasileiros, e 51,9% desses tinham marca de compra por instituições do Estado. A versão anterior também dizia que Canella liderou o grupo, que lavou cerca de R$ 7,6 bilhões, que Rogéria desistiu da suplência e que um capitão afirmou ter influência sobre a prefeitura. O correto: a PF fala em “patrono político” e em movimentações de mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos; a suplência foi retirada por decisão de Flávio; e as reportagens consultadas não atribuem ao capitão essa afirmação.

Fontes

Temas

  • Opinião
  • Falsa Direita
  • Segurança Pública
  • Bandeira Nacional
  • Eleições 2026

João Pedro Espíndola

Colunista de História

Escreve no Revista 7 de Setembro sobre história.

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