Opinião

Flávio chamou Vorcaro de "irmão" na véspera da prisão do banqueiro

Segundo a PF, mais de US$ 12 milhões saíram do país para o filme sobre Bolsonaro, e só US$ 2,8 milhões voltaram registrados.

OpiniãoEste é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista 7 de Setembro.

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Grupo de deputados e senadores reunidos no Congresso Nacional; ao centro, uma deputada e um deputado seguram o requerimento de abertura de uma CPMI
Parlamentares anunciam, no Congresso, o pedido de abertura da CPMI que vai investigar o caso Banco Master, em 3 de fevereiro de 2026.Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 16 de novembro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro (Partido Liberal, PL-RJ) mandou uma mensagem ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. “Irmão, estou e estarei contigo sempre”, escreveu. No dia seguinte, Vorcaro foi preso. A mensagem foi publicada pelo Intercept, veículo investigativo, em maio de 2026.

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, aprendemos a desconfiar de político íntimo de banqueiro encrencado. Os números do caso mostram por que a lição vale agora. Segundo a Polícia Federal (PF), mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil, e só US$ 2,8 milhões voltaram registrados.

O que o “irmão” pediu

A amizade não era só afeto. Segundo o Intercept, Vorcaro se comprometeu a pagar US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Pelo menos US$ 10,6 milhões, perto de R$ 61 milhões, foram pagos entre fevereiro e maio de 2025.

O dinheiro foi para o Havengate, um fundo sediado no Texas e ligado ao advogado Paulo Calixto, segundo o Intercept. A reportagem diz que o fundo captava recursos para um projeto imobiliário de US$ 21,1 milhões que nunca foi construído. Em 8 de setembro de 2025, Flávio cobrou parcelas atrasadas, segundo reportagens sobre o caso. Pouco mais de dois meses depois, veio a mensagem de lealdade.

Flávio nega irregularidades. Ao ser questionado pelo Intercept, ele chamou a história de mentira, segundo a Agência Pública. Em nota de 13 de maio, disse ter buscado “patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO” e afirmou: “Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem”.

Os números que não fecham

A PF chamou a diferença de “severa”, segundo o Ohoje. A conta é simples: de mais de US$ 12 milhões enviados, menos de um quarto aparece registrado na volta. A diferença de mais de US$ 9 milhões equivale a mais de três vezes o que voltou. A tabela abaixo resume os valores citados.

Mais de US$ 9 milhões que saíram do país não voltaram registrados Valores em US$ milhões, segundo as fontes citadas; situação até outubro de 2026

Dado US$ milhões
Compromisso de Vorcaro com o filme 24
Saídas do país, segundo a PF mais de 12
Pagos ao fundo, de fevereiro a maio de 2025 10,6
Diferença entre saídas e registro na volta (cálculo da redação) mais de 9,2
Registrados na volta, segundo a PF 2,8

Fonte: Polícia Federal, via Ohoje e Imirante; Intercept; SBT News. Diferença calculada pela redação. Os valores vêm de fontes diferentes e não devem ser somados. Elaboração: redação.

O que a direita cobraria de qualquer outro

Imagine que o candidato fosse do outro lado. Um político pede milhões a um banqueiro para um filme, vê parte do dinheiro seguir para um fundo no exterior e jura lealdade ao banqueiro na véspera da prisão. A direita estaria nas ruas, e com razão.

As explicações também não convencem. Em 28 de agosto, na entrevista ao Jornal Nacional, Flávio recusou detalhar o contrato e chamou o caso de “livro fechado”. A Lupa classificou como falsa a afirmação de que os detalhes já tinham sido mostrados. Reportagens do período indicam, porém, que a prestação de contas prometida não foi publicada.

Flávio já prometeu indultar o pai, condenado a 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado. No debate da Band, em 18 de outubro, Lula disse que um indulto teria de alcançar “todo mundo, inclusive o Vorcaro”. O Poder360 observou que isso não é automático e depende do decreto. Se eleito, quem chamou o banqueiro de “irmão” teria nas mãos a caneta do perdão.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em entrevista à Globo, reportada pela CNN Brasil em 16 de outubro, ele disse que o dinheiro era totalmente lícito e que o banqueiro não teve contrapartida ligada ao mandato de senador. Ele atribui a diferença apontada pela PF a “um contrato que não foi cumprido” e chama as investigações de “perseguição”.

O que isso significa

Flávio é investigado, não réu, e ninguém o condenou nesse caso. A PF pediu mais 90 dias de investigação, segundo a ConJur. Em 9 de setembro, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), homologou a delação do operador Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”. Delação é o acordo em que um investigado conta o que sabe em troca de benefícios na pena.

Até lá, a diferença entre o que saiu e o que voltou segue sem explicação pública documentada. Ninguém aqui pede que o leitor goste de Lula. Pedimos só coerência. No segundo turno, marcado para domingo (25), quem aplaudiu a Lava Jato não deveria entregar a bandeira da direita a quem chamou Vorcaro de “irmão”.

Como fizemos: Usamos reportagens do Intercept, Poder360, CNN Brasil, ConJur, Agência Brasil, Ohoje e SBT News, além da nota de Flávio de 13 de maio citada pelo Poder360, acessadas em 20 de outubro de 2026. Os valores estão em dólar e real como publicados, sem correção pela inflação. A diferença de mais de US$ 9 milhões é nosso cálculo: os mais de US$ 12 milhões da PF menos os US$ 2,8 milhões registrados na volta. Não tivemos acesso ao inquérito nem ao relatório da PF, e as fontes medem coisas diferentes: o Intercept fala em dinheiro recebido pelo fundo, a PF em valores enviados ao exterior.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que “um presidente que chamou o banqueiro de ‘irmão’” teria o poder de indulto. Flávio é senador e candidato, não presidente. A frase foi reescrita como hipótese.

Fontes

Temas

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  • Daniel Vorcaro
  • Eleições 2026

Gerson Figueiredo

Repórter de dados

Cobre o que os dados públicos dizem para o Revista 7 de Setembro.

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