Opinião

Eduardo condenado, Flávio investigado: a família Bolsonaro mistura processos e poder

Em junho, o STF condenou Eduardo a 4 anos e 2 meses de prisão; em julho, Flávio passou a ser investigado no caso Dark Horse.

OpiniãoEste é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista 7 de Setembro.

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Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro posam de terno, lado a lado, com outros dois homens, diante de bandeiras do Brasil
Eduardo, Flávio e Jair Bolsonaro (da esquerda para a direita) em encontro em Brasília, em novembro de 2019 (foto de arquivo).Foto: Carolina Antunes / PR / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 25 de agosto de 2020, uma reunião no Palácio do Planalto foi gravada. Segundo a Polícia Federal (PF), estavam lá o então presidente Jair Bolsonaro, o então diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, e advogadas de Flávio Bolsonaro. O assunto, segundo a PF, era anular a investigação contra o senador e tirar auditores da Receita Federal de seus cargos. Flávio afirmou ser vítima de criminosos que acessaram ilegalmente seus dados na Receita, segundo a InfoMoney.

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, defendemos também a família. Ela é a primeira escola de valores, o lugar onde se aprende a palavra dada. Mas família é uma coisa. Usar o Estado para proteger os próprios parentes é outra, e tem nome: dinastia.

Em 11 de dezembro de 2020, a revista Época revelou relatórios atribuídos à Abin para defender Flávio no caso da rachadinha (devolução de parte do salário a político). Segundo o Poder360, a advogada do senador, Luciana Pires, confirmou que os documentos são autênticos e vieram da Abin, mas não comentou o conteúdo. O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) negou que a agência tenha produzido os documentos. A Abin manteve que não se envolveu no tema.

Flávio foi denunciado em novembro de 2020. Em 16 de maio de 2022, a Justiça do Rio arquivou a denúncia, depois que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou decisões das investigações. Anulado não é inocentado, e também não é condenado.

Quando o Estado vira assunto de casa

A agência de inteligência do país existe para proteger o Estado, não um filho de presidente. Quando ela aparece num caso de família, a fronteira entre o público e o privado desaparece.

Processos que se acumulam

Em 22 de julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), incluiu Flávio como investigado no caso Dark Horse. Segundo a Agência Brasil, o banqueiro Daniel Vorcaro teria dado R$ 61 milhões para o filme sobre Jair Bolsonaro. A suspeita é que a quantia tenha sido liberada a pedido do senador. Eduardo Bolsonaro também é alvo do inquérito, apontado como possível beneficiário de parte do dinheiro.

Em 16 de junho, a Primeira Turma do STF condenou Eduardo Bolsonaro por coação no curso do processo, isto é, pressão para interferir em um processo judicial. Segundo a decisão, ele trabalhou por tarifas americanas sobre exportações brasileiras para tentar impedir a condenação do pai. A pena é de 4 anos e 2 meses em regime semiaberto, além de 8 anos sem poder disputar eleições. A decisão foi unânime, e cabe recurso.

Ainda assim, Eduardo diz que fará gestões junto à Casa Branca. Segundo o Poder360, ele disse ao SBT News que a volta das sanções contra o ministro Alexandre de Moraes é “provável” se Flávio vencer. A tabela abaixo resume a situação de cada processo citado.

Só a rachadinha de Flávio foi arquivada entre os processos citados Situação de cada processo, segundo as fontes, em 20 de outubro de 2026

Pessoa Caso Situação
Flávio Bolsonaro Rachadinha Denunciado em novembro de 2020; arquivado em 16/05/2022
Eduardo Bolsonaro Coação no curso do processo Condenado pelo STF em 16/06/2026; cabe recurso
Flávio Bolsonaro Caso Dark Horse Incluído como investigado em 22/07/2026
Eduardo Bolsonaro Caso Dark Horse Alvo do mesmo inquérito
Márcio Canella, aliado de Flávio Lavagem de dinheiro Preso pela PF em 15/10/2026; investigado

Fonte: Agência Brasil, Poder360, CNN Brasil e Diário do Nordeste (links em Fontes). Elaboração: redação.

Em 29 de julho, Flávio anunciou que a mãe, Rogéria Bolsonaro, seria candidata a deputada federal, e não suplente ao Senado de Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo. Em 15 de outubro, a PF prendeu Canella preventivamente, por ordem de Moraes, na Operação Unha e Carne. Ele é investigado por lavagem de dinheiro, e a PF apura uma suposta movimentação de R$ 7,6 bilhões por postos de combustíveis do Rio. Segundo o Diário do Grande ABC, a defesa dele ainda não se manifestou.

Promessa de campanha não é lei

Em 2 de março, Flávio apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para acabar com a reeleição presidencial. Em 16 de outubro, em entrevista ao Jornal Nacional, ele prometeu cumprir um só mandato e defendeu que a regra valesse também para parentes. Promessa de campanha, porém, não é lei: até o Congresso aprovar a mudança como emenda à Constituição, vale só a palavra do candidato.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele afirmou ser vítima de criminosos que acessaram ilegalmente seus dados na Receita, segundo a InfoMoney. Em 16 de outubro, disse ao Jornal Nacional que só precisa de um mandato e que a regra contra a reeleição deveria valer também para parentes, segundo o Poder360. A reportagem não localizou manifestação dele sobre a reunião de 2020 nas fontes consultadas.

Em 1889, a Proclamação da República acabou com a monarquia, regime em que o trono passava de pai para filho. O segundo turno é no domingo (25) de outubro.

Família de verdade ensina limites. No domingo, a direita pode honrar esses valores lembrando a lição de 1889: o poder no Brasil não passa de pai para filho.

Como fizemos: Verificamos os dados em 20 de outubro de 2026, com base em reportagens da Agência Brasil, do Poder360, da CNN Brasil, da InfoMoney, do Diário do Grande ABC e do Diário do Nordeste, além de notícias do TSE sobre o calendário eleitoral. Os valores e datas são os informados nessas fontes; os R$ 7,6 bilhões são suposta movimentação, e as fontes divergem sobre se o número se refere à operação de outubro ou a uma investigação anterior. A tabela resume a situação de cada processo em 20 de outubro de 2026, sem cálculo próprio nem correção pela inflação, porque o texto não compara valores em dinheiro ao longo dos anos. Não encontramos confirmação em outra fonte para a afirmação sobre a Petrobras, que foi retirada deste texto; o conteúdo sigiloso das investigações não está disponível.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que Rogéria Bolsonaro desistiu de ser suplente de Márcio Canella; foi Flávio quem a tirou da chapa e a lançou candidata a deputada federal. O texto também dizia que a Abin e o GSI negaram ter escrito os relatórios: o GSI negou que a agência tenha produzido os documentos, e a Abin disse não ter se envolvido no tema. Além disso, dizia que o grupo de Canella “lavou” R$ 7,6 bilhões; o valor é uma suposta movimentação investigada pela PF.

Fontes

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  • República
  • Eleições 2026

Sônia Barros

Repórter de Memória

Cobre memória para o Revista 7 de Setembro.

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