Eduardo condenado, Flávio investigado: a família Bolsonaro mistura processos e poder
Em junho, o STF condenou Eduardo a 4 anos e 2 meses de prisão; em julho, Flávio passou a ser investigado no caso Dark Horse.
OpiniãoEste é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista 7 de Setembro.
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- Sônia Barros
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Em 25 de agosto de 2020, uma reunião no Palácio do Planalto foi gravada. Segundo a Polícia Federal (PF), estavam lá o então presidente Jair Bolsonaro, o então diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, e advogadas de Flávio Bolsonaro. O assunto, segundo a PF, era anular a investigação contra o senador e tirar auditores da Receita Federal de seus cargos. Flávio afirmou ser vítima de criminosos que acessaram ilegalmente seus dados na Receita, segundo a InfoMoney.
Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, defendemos também a família. Ela é a primeira escola de valores, o lugar onde se aprende a palavra dada. Mas família é uma coisa. Usar o Estado para proteger os próprios parentes é outra, e tem nome: dinastia.
Em 11 de dezembro de 2020, a revista Época revelou relatórios atribuídos à Abin para defender Flávio no caso da rachadinha (devolução de parte do salário a político). Segundo o Poder360, a advogada do senador, Luciana Pires, confirmou que os documentos são autênticos e vieram da Abin, mas não comentou o conteúdo. O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) negou que a agência tenha produzido os documentos. A Abin manteve que não se envolveu no tema.
Flávio foi denunciado em novembro de 2020. Em 16 de maio de 2022, a Justiça do Rio arquivou a denúncia, depois que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou decisões das investigações. Anulado não é inocentado, e também não é condenado.
Quando o Estado vira assunto de casa
A agência de inteligência do país existe para proteger o Estado, não um filho de presidente. Quando ela aparece num caso de família, a fronteira entre o público e o privado desaparece.
Processos que se acumulam
Em 22 de julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), incluiu Flávio como investigado no caso Dark Horse. Segundo a Agência Brasil, o banqueiro Daniel Vorcaro teria dado R$ 61 milhões para o filme sobre Jair Bolsonaro. A suspeita é que a quantia tenha sido liberada a pedido do senador. Eduardo Bolsonaro também é alvo do inquérito, apontado como possível beneficiário de parte do dinheiro.
Em 16 de junho, a Primeira Turma do STF condenou Eduardo Bolsonaro por coação no curso do processo, isto é, pressão para interferir em um processo judicial. Segundo a decisão, ele trabalhou por tarifas americanas sobre exportações brasileiras para tentar impedir a condenação do pai. A pena é de 4 anos e 2 meses em regime semiaberto, além de 8 anos sem poder disputar eleições. A decisão foi unânime, e cabe recurso.
Ainda assim, Eduardo diz que fará gestões junto à Casa Branca. Segundo o Poder360, ele disse ao SBT News que a volta das sanções contra o ministro Alexandre de Moraes é “provável” se Flávio vencer. A tabela abaixo resume a situação de cada processo citado.
Só a rachadinha de Flávio foi arquivada entre os processos citados Situação de cada processo, segundo as fontes, em 20 de outubro de 2026
| Pessoa | Caso | Situação |
|---|---|---|
| Flávio Bolsonaro | Rachadinha | Denunciado em novembro de 2020; arquivado em 16/05/2022 |
| Eduardo Bolsonaro | Coação no curso do processo | Condenado pelo STF em 16/06/2026; cabe recurso |
| Flávio Bolsonaro | Caso Dark Horse | Incluído como investigado em 22/07/2026 |
| Eduardo Bolsonaro | Caso Dark Horse | Alvo do mesmo inquérito |
| Márcio Canella, aliado de Flávio | Lavagem de dinheiro | Preso pela PF em 15/10/2026; investigado |
Fonte: Agência Brasil, Poder360, CNN Brasil e Diário do Nordeste (links em Fontes). Elaboração: redação.
Em 29 de julho, Flávio anunciou que a mãe, Rogéria Bolsonaro, seria candidata a deputada federal, e não suplente ao Senado de Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo. Em 15 de outubro, a PF prendeu Canella preventivamente, por ordem de Moraes, na Operação Unha e Carne. Ele é investigado por lavagem de dinheiro, e a PF apura uma suposta movimentação de R$ 7,6 bilhões por postos de combustíveis do Rio. Segundo o Diário do Grande ABC, a defesa dele ainda não se manifestou.
Promessa de campanha não é lei
Em 2 de março, Flávio apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para acabar com a reeleição presidencial. Em 16 de outubro, em entrevista ao Jornal Nacional, ele prometeu cumprir um só mandato e defendeu que a regra valesse também para parentes. Promessa de campanha, porém, não é lei: até o Congresso aprovar a mudança como emenda à Constituição, vale só a palavra do candidato.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ele afirmou ser vítima de criminosos que acessaram ilegalmente seus dados na Receita, segundo a InfoMoney. Em 16 de outubro, disse ao Jornal Nacional que só precisa de um mandato e que a regra contra a reeleição deveria valer também para parentes, segundo o Poder360. A reportagem não localizou manifestação dele sobre a reunião de 2020 nas fontes consultadas.
Em 1889, a Proclamação da República acabou com a monarquia, regime em que o trono passava de pai para filho. O segundo turno é no domingo (25) de outubro.
Família de verdade ensina limites. No domingo, a direita pode honrar esses valores lembrando a lição de 1889: o poder no Brasil não passa de pai para filho.
Como fizemos: Verificamos os dados em 20 de outubro de 2026, com base em reportagens da Agência Brasil, do Poder360, da CNN Brasil, da InfoMoney, do Diário do Grande ABC e do Diário do Nordeste, além de notícias do TSE sobre o calendário eleitoral. Os valores e datas são os informados nessas fontes; os R$ 7,6 bilhões são suposta movimentação, e as fontes divergem sobre se o número se refere à operação de outubro ou a uma investigação anterior. A tabela resume a situação de cada processo em 20 de outubro de 2026, sem cálculo próprio nem correção pela inflação, porque o texto não compara valores em dinheiro ao longo dos anos. Não encontramos confirmação em outra fonte para a afirmação sobre a Petrobras, que foi retirada deste texto; o conteúdo sigiloso das investigações não está disponível.
Correção: uma versão anterior deste texto dizia que Rogéria Bolsonaro desistiu de ser suplente de Márcio Canella; foi Flávio quem a tirou da chapa e a lançou candidata a deputada federal. O texto também dizia que a Abin e o GSI negaram ter escrito os relatórios: o GSI negou que a agência tenha produzido os documentos, e a Abin disse não ter se envolvido no tema. Além disso, dizia que o grupo de Canella “lavou” R$ 7,6 bilhões; o valor é uma suposta movimentação investigada pela PF.
Fontes
- Áudio de reunião no Planalto sobre o caso Flávio Bolsonaro — InfoMoney
- Abin produziu relatórios para defender Flávio Bolsonaro no caso Queiroz — Poder360
- Abin não produziu relatórios para livrar Flávio Bolsonaro, diz GSI — Poder360
- Justiça arquiva denúncia contra Flávio Bolsonaro por rachadinhas — Poder360
- Flávio diz que foi surpreendido com prisões de Canella e Bacellar — CNN Brasil
- Márcio Canella, 2º deputado estadual mais votado do RJ, é preso em operação da PF — Diário do Nordeste
- Quem é Márcio Canella, 2º deputado estadual mais votado do RJ que foi preso pela PF — Diário do Grande ABC
- Flávio anuncia Rogéria Bolsonaro como candidata a deputada federal pelo Rio — Gazeta do Povo
- Eduardo diz que atuará nos EUA para retomada da Magnitsky a Moraes — Poder360
- Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse — Agência Brasil
- STF condena Eduardo Bolsonaro à inelegibilidade e a 4 anos de prisão — Agência Brasil
- Se eleito, Flávio quer fim da reeleição já para seu mandato; entenda — Poder360
- Eleições 2026: confira as principais datas do calendário eleitoral — Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
- Proclamação da República: entenda a história do feriado de 15 de novembro — SBT News



