Opinião

Só duas propostas de Flávio passaram no Senado em sete anos

Ele não registrou voto em 43% das votações nominais de 2026 até junho, mais que o dobro da média da Casa.

OpiniãoEste é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista 7 de Setembro.

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Jair Bolsonaro segura um troféu ao lado de Pedro Guimarães, enquanto Flávio Bolsonaro observa à direita
O então presidente Jair Bolsonaro, ao lado do então presidente da Caixa, Pedro Guimarães, e de Flávio Bolsonaro (à direita), em Brasília, em maio de 2019 (foto de arquivo).Foto: Isac Nóbrega / PR / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Desde 2019, o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL) do Rio de Janeiro, apresentou 433 propostas como autor ou coautor. Só duas de sua autoria passaram pelo Senado, segundo levantamento do jornal Valor publicado pelo Terra.

Nenhum dos dois virou lei, porque ambos seguem na Câmara dos Deputados. Para virar lei, uma proposta precisa passar pelas duas Casas do Congresso e ser sancionada pelo presidente da República.

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, acreditamos no mérito. É a ideia de que cada um sobe pelo próprio esforço, e não pelo sobrenome. Por isso, olhamos o currículo de quem pede o nosso voto antes de olhar para a família dele. Fazemos isso com qualquer candidato, de qualquer partido.

O que o registro do Senado mostra

Um dos projetos destina recursos de loterias à Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR). O outro trata da reciclagem de baterias de carros elétricos. Dos 60 projetos de lei em que aparece como autor ou coautor, 54 seguem em tramitação e seis foram encerrados. Ou seja, só 2 de 60 passaram pelo Senado, cerca de 3%.

É preciso ser justo: Flávio é advogado e já teve uma franquia de chocolates no Rio, então não é verdade que nunca trabalhou. Ele também tem entregas: foi relator do projeto das saidinhas, que acabou com a saída de presos em feriados, aprovado por 62 a 2 em fevereiro de 2024. Em 14 de outubro de 2026, votou a favor do fim da escala 6x1: seis dias de trabalho para um de folga. A proposta teve 75 votos a 1 nos dois turnos do Senado.

Faltas: o número e a resposta

Votação nominal é aquela em que o voto de cada senador fica registrado. Segundo a Folha de S.Paulo, Flávio não registrou voto em 43% das 49 votações nominais de 2026 até 22 de junho. A média dos 81 senadores no período foi de 20%, ou seja, a taxa dele é mais que o dobro. Outra contagem, do SBT News, deu 28%: ele não compareceu a 15 de 54 votações até 15 de julho.

Procurado pela Folha na época, o gabinete dele não respondeu. Em 28 de junho, o Diário do Centro do Mundo informou que a assessoria disse ter tido “apenas uma falta em 2025 e três em 2026”. Segundo a assessoria, não votar “não significa que o senador não estivesse em atividade parlamentar”.

Uma campanha bancada pelo partido

A campanha também mostra de onde vem o dinheiro. Até 1º de outubro, a campanha tinha arrecadado R$ 61,7 milhões, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) consultados pelo Poder360. Desse total, cerca de R$ 55,3 milhões, ou cerca de 90%, foram repassados pelo diretório nacional do PL. A tabela abaixo reúne os números usados nesta análise.

Duas propostas aprovadas e uma campanha bancada em grande parte pelo PL Quantidades, percentuais e reais, nos períodos indicados em cada linha

Indicador Valor
Proposições como autor ou coautor, desde 2019 433
Projetos de lei como autor ou coautor 60
Projetos de lei de sua autoria aprovados pelo Senado 2
Votações nominais de 2026 sem voto registrado, até 22/6 43%
Média dos 81 senadores no mesmo período 20%
Arrecadação da campanha, até 1º/10/2026 R$ 61,7 mi
Repasse do PL à campanha R$ 55,3 mi (cerca de 90%)

Fonte: Valor, via Terra (proposições e projetos de lei); Folha de S.Paulo (votações nominais); Poder360, com dados do TSE (campanha). Percentual do PL calculado pela redação: R$ 55,3 mi de R$ 61,7 mi. Elaboração: redação.

A candidatura depende, sobretudo, da máquina do partido, e pouco de doadores conquistados pelo candidato. A direita sempre criticou o apadrinhamento no serviço público. Seria incoerente aplicar essa régua ao funcionário da prefeitura e dispensá-la para o candidato a presidente.

O que diz Flávio Bolsonaro: Segundo a Folha de S.Paulo, o gabinete foi procurado por e-mail e telefone e não respondeu antes da publicação. Depois, a assessoria afirmou que não votar “não significa que o senador não estivesse em atividade parlamentar”, segundo o Diário do Centro do Mundo, que republicou a reportagem. Nas fontes consultadas, não há manifestação dele sobre o repasse do PL à campanha.

O que isso significa

Os números não dizem se Flávio será um bom presidente. Dizem o que ele entregou ao Senado: duas propostas aprovadas em sete anos e votações sem registro de voto acima da média. Mostram também uma campanha que depende, em grande parte, do partido.

Flávio disputa o segundo turno com o atual presidente, Lula, no domingo (25). O eleitor da direita do mérito pode aplicar ao candidato a mesma régua que aplica a si mesmo. Esse histórico não forma o currículo que a direita do mérito merece.

Como fizemos: Usamos o levantamento do jornal Valor, publicado pelo Terra, sobre as proposições e os projetos de lei de Flávio, e a contagem da Folha de S.Paulo sobre as votações nominais do Senado em 2026, até 22 de junho. Os dados de campanha são do TSE, citados pelo Poder360 (consulta em 1º de outubro de 2026) e pelo NC News. Calculamos a parte do PL (R$ 55,3 milhões de R$ 61,7 milhões, cerca de 90%) e a razão entre 43% e 20%; os valores são de 2026, sem correção pela inflação, porque não comparamos anos. Todas as fontes foram acessadas em 20 de outubro de 2026. Os dados não mostram os motivos das ausências e consideram só votações nominais; outra contagem, do SBT News, deu 28% até 15 de julho.

Correção: uma versão anterior deste texto atribuía o levantamento das 433 proposições ao Terra; a fonte é o jornal Valor, citado pelo Terra. A versão anterior também dizia que Flávio “faltou” a 43% das votações, quando o dado da Folha é de votações sem voto registrado. Por fim, o repasse do PL era de R$ 55,2 milhões (89% do total); reportagens com dados do TSE, como a do NC News, indicam R$ 55,3 milhões, cerca de 90%.

Fontes

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  • Eleições 2026

Sueli Neves

Repórter de Educação

Cobre educação para o Revista 7 de Setembro.

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