Tribuna

Memória pública não é gasto a cortar

A Cinemateca teve corte de 29% no repasse federal em 2024, e ao Museu Nacional faltavam R$ 170 milhões em 2025: memória é patrimônio, não gasto.

Tribuna · ensaio assinadoArgumento e conclusões pertencem a quem assina este texto, não necessariamente à Revista 7 de Setembro.

Publicado em
Leitura
4 min de leitura
Fachada neoclássica amarela do Palácio de São Cristóvão, sede do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro
Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, sede do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.Foto: Halley Pacheco de Oliveira / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Em 2 de setembro de 2018, um incêndio destruiu a maior parte dos 20 milhões de itens do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Oito anos depois, a memória do país ainda depende de verba incerta.

Esta revista defende uma tese simples. Memória pública é patrimônio nacional, e não gasto a cortar. Três casos mostram por quê.

O Museu Nacional pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A Cinemateca Brasileira, em São Paulo, guarda filmes e é administrada por uma entidade privada sem fins lucrativos, por contrato com a União. O Arquivo Nacional abriga o Memórias Reveladas, centro de pesquisa sobre a ditadura militar.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) protege bens pelo tombamento, a inscrição oficial de um bem como patrimônio. Em 6 de março de 2026, o deputado Capitão Augusto (PL/SP) apresentou o projeto de lei (PL) 1007/2026. Segundo a página do projeto na Câmara dos Deputados, o texto extingue o Iphan.

Quanto custa esperar

Em abril de 2025, a reconstrução do Museu Nacional custava R$ 516 milhões. Desse total, R$ 347 milhões já tinham sido captados, incluindo um aporte de R$ 50 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Faltavam cerca de R$ 170 milhões, segundo o Brasil de Fato.

A Cinemateca vive outra forma de espera. Em 2021, a Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC) foi escolhida para gerir a instituição até dezembro de 2026, segundo a Folha Vitória. O contrato prevê ao menos R$ 50 milhões no período, em parcelas de R$ 10 milhões por ano, condicionadas ao orçamento.

Em 2024, a Cinemateca abriu o ano com corte de 29% no repasse federal e atraso nas parcelas do contrato, segundo o seu relatório anual de atividades. No Arquivo Nacional, o Memórias Reveladas tinha dois servidores, a menor equipe desde 2009, segundo o Giro da Arquivo.

O argumento contrário, e a resposta

Quem defende cortes tem um ponto legítimo. O dinheiro público é limitado, e a máquina federal costuma ser lenta. O deputado Capitão Augusto usa esse argumento. Segundo a justificativa do projeto, reportada pelo Jornal Opção, o Iphan teria lentidão processual, burocracia paralisante e critérios de tombamento opacos.

A resposta tem três partes. Primeiro, lentidão é falha de gestão. Ela se corrige com prazos, regras claras e transparência, não com a extinção do órgão.

Segundo, entregar a gestão a uma entidade privada não tira o custo do Estado. A Lei 9.637, de 1998, criou as organizações sociais e incluiu a cultura entre as áreas possíveis. Seu artigo 7º manda observar a economicidade e exige metas com critérios objetivos de avaliação. O caso da Cinemateca mostra o limite: a entidade executa, mas o repasse depende do orçamento federal.

Terceiro, o Estado precisou ser cobrado a cumprir a própria parte. Em março de 2025, a 1ª Vara Cível Federal de São Paulo mandou a União restabelecer o Conselho Técnico-Consultivo da Cinemateca, extinto em setembro de 2024. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a União descumpriu um acordo homologado em junho de 2024.

Soberania também se exerce sobre a própria história. Um país que não guarda seus filmes, fósseis e documentos perde a chance de contar a si mesmo. Essa memória só serve à nação se alguém cuida dela por décadas, com orçamento previsível.

O que diz o deputado Capitão Augusto (PL/SP): Na justificativa do PL 1007/2026, ele sustenta que o Iphan tem lentidão, burocracia e critérios opacos de tombamento, segundo o Jornal Opção. O projeto foi apresentado em 6 de março de 2026. A posição vem da justificativa e da reportagem citada; este texto não registra resposta direta do deputado.

Três pontos seguem em aberto. O contrato da SAC vence em dezembro de 2026, e as fontes consultadas não confirmam renovação. O Museu Nacional ainda precisava, em 2025, de cerca de R$ 170 milhões para concluir a obra. E o PL 1007/2026 segue na Câmara, sem relator designado até a consulta feita para este texto.

Cabe ao Congresso e ao Poder Executivo decidir o futuro desses órgãos. Esta revista pede que a decisão seja tomada com os números à vista, e que a memória do país não seja tratada como sobra de orçamento.

Como fizemos: Consultamos a ficha de tramitação do PL 1007/2026 na Câmara dos Deputados, o comunicado do MPF de 18/03/2025, o relatório anual de atividades de 2024 da Cinemateca, a Lei 9.637/1998 no Senado e reportagens da Brasil de Fato (2023 e 2025), da Folha Vitória e do Jornal Opção, acessadas em 24/10/2026. Os valores do Museu Nacional vêm de abril de 2025 e não foram atualizados. Não fizemos cálculo novo. Não localizamos dados de 2026 sobre a obra nem sobre a renovação do contrato da Cinemateca, e os dados sobre o Memórias Reveladas são de 2024.

Fontes