Depois do segundo turno, a bandeira volta a ser de todos
Após a reeleição de Lula, esta revista defende que a Bandeira Nacional não é emblema de partido. Ela pertence a vencedores e derrotados.
Tribuna · ensaio assinadoArgumento e conclusões pertencem a quem assina este texto, não necessariamente à Revista 7 de Setembro.
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- Ítalo Muniz
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No domingo, 25 de outubro de 2026, Lula (Partido dos Trabalhadores, PT) foi reeleito presidente da República. Com 100% das urnas apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele teve 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro (Partido Liberal, PL) teve 48,21%.
Votos válidos são os votos dados a candidatos, sem contar brancos e nulos. A eleição terminou. A bandeira continua a mesma, e esta revista defende que ela seja tratada como ela é: símbolo de todos os brasileiros, e não emblema de partido.
O que a lei diz sobre a bandeira
A Constituição Federal diz que “São símbolos da República Federativa do Brasil a bandeira, o hino, as armas e o selo nacionais” (artigo 13, parágrafo 1º). O texto fala em símbolos do país. Não fala em símbolos de governo nem de partido.
A Lei 5.700, de 1971, regula esses símbolos. Pelo artigo 10, a bandeira “pode ser usada em todas as manifestações do sentimento patriótico dos brasileiros”. O uso pertence a quem sente o patriotismo, não a um grupo.
A lei também trata das cores. O artigo 28 afirma: “Consideram-se cores nacionais o verde e o amarelo.” O artigo 29 acrescenta que as cores “podem ser usadas sem quaisquer restrições, inclusive associadas a azul e branco”. O texto não reserva o verde e o amarelo a nenhum grupo.
O respeito que a lei exige é outro. Nas cerimônias de hasteamento ou arriamento, e durante o Hino Nacional, “todos devem tomar atitude de respeito, de pé e em silêncio” (artigo 30). O artigo 31 proíbe atos de desrespeito, como “mudar-lhe a forma, as cores, as proporções”. O respeito é ao símbolo e às cerimônias, não à vitória de um candidato.
Dois lados, o mesmo símbolo
A disputa pelo símbolo começou antes da urna. Em setembro de 2025, o secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, disse que as manifestações de rua “tiraram da extrema-direita o monopólio dos símbolos nacionais”. Segundo a mesma reportagem, o partido planejava usar “as cores da Bandeira do Brasil” nas inserções de TV de Lula.
Em junho de 2026, a disputa chegou à Seleção. Lula publicou fotos com a camisa amarela, com a legenda “O Brasil é dos brasileiros”, segundo a Gazeta do Povo. No dia 11 de junho, em evento no Pará, Flávio Bolsonaro respondeu que “O Lula é tão ladrão que até a bandeira ele quer roubar.”
Em 16 de agosto, no lançamento da campanha de reeleição de Lula, em São Bernardo do Campo, Simone Tebet disse: “Enquanto eles falam de pátria, quem defende as cores verde e amarela somos nós”.
A queixa do outro lado é real. Parte dos apoiadores de Flávio Bolsonaro sente que um símbolo foi tomado. A frase do PT de 2025 parte da ideia de que a direita tinha o “monopólio” das cores. Para quem se sente representado por esse campo, a disputa aparece como perda. Ainda assim, a resposta não é privatizar a bandeira de volta.
O que diz Flávio Bolsonaro: Em evento no Pará, em 11 de junho de 2026, ele afirmou: “O Lula é tão ladrão que até a bandeira ele quer roubar.” A fala foi publicada pela Gazeta do Povo.
Dizer que a bandeira é de um partido a diminui. Dizer que ela é só de quem venceu faz o mesmo. Patriotismo, neste caso, é respeitar as instituições e o resultado das urnas, e não a posse de um símbolo.
A urna deu a vitória a Lula. Ela também deu a Flávio Bolsonaro quase metade dos votos válidos. Ninguém perde a nacionalidade por ter perdido a eleição. Quem perdeu continua brasileiro, e a bandeira também é dele.
O que esta revista defende
Esta revista tem lado, e o declara: defende serviços públicos fortes, soberania e instituições respeitadas. Por isso mesmo, não aceita que a bandeira seja usada como prova de lealdade a um governo ou a um partido. O texto da Lei 5.700 não cria esse filtro, e não cabe a nenhum campo criá-lo.
Quem apoiou Lula e quem apoiou Flávio Bolsonaro pode vestir verde e amarelo, hastear a bandeira e cantar o Hino. A diferença está no que cada um faz com o resultado. Reconhecer a apuração do TSE e aceitar a alternância de poder são gestos de respeito ao país, e esse respeito vale mais que qualquer camisa.
Na foto desta matéria, uma bandeira pende da fachada do Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo federal. Ela não representa o partido que ocupa o prédio. Representa o país. Depois do segundo turno, vale lembrar isso de um lado e do outro.
Como fizemos: Conferimos a Constituição Federal (artigo 13, parágrafo 1º) e a Lei 5.700/1971 (artigos 10, 28, 29, 30 e 31) no site do Palácio do Planalto, em 26 de outubro de 2026. O resultado do segundo turno vem de reportagens da Metrópoles e da Gazeta do Povo, que citam a apuração do TSE; não consultamos o site do TSE diretamente. As falas de campanha vêm de reportagens publicadas entre setembro de 2025 e agosto de 2026. Não fizemos cálculo próprio.
Fontes
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 — Planalto (acesso em 26 de outubro de 2026)
- Lei 5.700, de 1971 (símbolos nacionais) — Planalto (acesso em 26 de outubro de 2026)
- Lula conquista virada inédita no segundo turno e é reeleito para 4º mandato — Metrópoles
- Lula vence em eleição mais confusa dos últimos anos — Gazeta do Povo
- Flávio fala que camisa da seleção é do Bolsonaro depois de ensaio de Lula com a amarelinha — Gazeta do Povo
- “Quem defende as cores verde e amarela somos nós”, diz Tebet — Poder360
- PT indica mote da campanha de Lula em propaganda cheia de verde amarelo e discurso de soberania — Diário de Pernambuco, 27 de setembro de 2025
- Bandeira do Brasil pendurada na fachada do Palácio do Planalto — Wikimedia Commons (foto de Juliana Werneck, CC BY-SA 4.0)



