A Bolsa não mede a legitimidade de uma eleição
O Ibovespa caiu 13,88% em 26 de outubro, mas a bolsa mede apostas. O que legitima a eleição são os 64.256.232 votos apurados pelo TSE.
Tribuna · ensaio assinadoArgumento e conclusões pertencem a quem assina este texto, não necessariamente à Revista 7 de Setembro.
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- Ítalo Muniz
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Na segunda-feira, 26 de outubro, o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos. Foi a maior queda diária em seis anos, segundo a Exame. O pregão veio um dia depois da reeleição de Lula, confirmada no domingo (25).
O Ibovespa é o índice das ações negociadas na B3, a bolsa de valores brasileira. Há quem leia a queda como veredicto sobre a eleição. Esta Tribuna discorda. O índice mede o preço de apostas. Ele não mede a vontade de quem vota.
O placar da eleição está nas urnas, apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Com 100% das urnas apuradas, Lula teve 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), segundo a Terra. Em números, foram 64.256.232 votos para Lula e 59.826.041 para Flávio, segundo a Revista Oeste, que reproduz a apuração do TSE.
O mesmo índice já tinha reagido à disputa. No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio ficou à frente, com 47,03% dos votos válidos. Na segunda-feira seguinte, 5 de outubro, o Ibovespa subiu 7,70%, para 206.911,89 pontos. A B3 registrou o fechamento no maior patamar de sua história até então, segundo a Bora Investir, publicação da própria bolsa.
A bolsa mede apostas, não votos
Os dois movimentos respondem à mesma coisa: expectativa sobre a política econômica. Em 5 de outubro, a analista Jaqueline Neo, da be.smart, disse: “O mercado está precificando a possibilidade de uma política econômica mais favorável”. Precificar é colocar uma expectativa no preço. Quando a expectativa muda, o preço muda junto.
A parcela do país que aposta na bolsa é pequena. A B3 contou 5,7 milhões de pessoas físicas, ou seja, cidadãos com CPF, em renda variável no segundo trimestre de 2026. Renda variável são aplicações cujo preço muda com o mercado, como as ações. O TSE registra 158.745.463 eleitores aptos a votar. A conta dá cerca de 3,6%.
Quem aparece em cada placar Pessoas e parte dos eleitores aptos em 2026
| Grupo | Pessoas | Parte do eleitorado |
|---|---|---|
| Votos de Lula no segundo turno | 64,3 milhões | 40,5% |
| Pessoas físicas em renda variável na B3 | 5,7 milhões | 3,6% |
Fonte: TSE; B3. Cálculo da redação. Os dois grupos não se somam, porque quem investe também vota.
A conta pode ser maior se entrarem fundos e previdência, os planos privados de aposentadoria. A B3 cita fundos em seu boletim, mas as fontes consultadas não dizem quantas pessoas têm ações por esse caminho. Sem esse dado, a bolsa não pode ser tomada como retrato da maioria.
O argumento contrário tem parte verdadeira
A preocupação de quem olha o mercado é séria. Em 5 de outubro, a estrategista Rebecca Nossig, da Nomad, disse que o resultado trouxe “uma sensível melhora nas perspectivas para a trajetória da dívida pública”. A trajetória da dívida mostra como o endividamento do governo evolui ao longo do tempo. O risco fiscal é real, e o mercado tem razão em acompanhá-lo.
Dois custos também são reais. O dólar subiu 8,21% em 26 de outubro, para R$ 5,4027, a maior alta diária desde 1999, segundo a Exame. Dólar mais caro tende a encarecer produtos importados e insumos. Quem tem fundos de investimento, inclusive fundos de índice (ETFs), também sente a queda.
O que diz Rebecca Nossig, estrategista da Nomad: Em 26 de outubro, ela afirmou que o pregão foi “marcado por extrema volatilidade e forte aversão ao risco no mercado financeiro brasileiro”, segundo a Exame. A fala vem de reportagem da Exame; esta redação não falou diretamente com a analista.
Esta Tribuna reconhece esses riscos. Eles merecem debate sobre o orçamento e os juros, no governo e no Congresso. Mas são argumentos sobre política econômica, não um atestado de que o eleitor errou. Uma eleição com 64 milhões de votos não se desfaz em um pregão.
A economia que sustenta salário e emprego está nas fábricas, no comércio e nos serviços espalhados pelo país, e não cabe em um índice. A B3 mostra onde estão seus investidores: em 2025, 1,9 milhão dos quase 5,5 milhões eram de São Paulo. Minas Gerais tinha 554 mil, e o Rio de Janeiro, 550 mil.
O que fica em aberto é a política fiscal que o novo mandato vai apresentar. O mercado vai cobrar números, e a sociedade também. Esta análise não é recomendação de investimento. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar.
A bolsa mede expectativas. A legitimidade de uma eleição vem das urnas.
Como fizemos: Usamos os votos e percentuais do segundo turno publicados pela Terra e pela Revista Oeste, que reproduzem a apuração do TSE com 100% das urnas, e as cotações do Ibovespa e do dólar da Exame, da Bora Investir e do EuQueroInvestir, acessadas em 26/10/2026. A parcela do eleitorado é cálculo nosso: 64.256.232 votos e 5,7 milhões de investidores divididos por 158.745.463 eleitores aptos, arredondados. Os dados da B3 não medem quantas pessoas têm ações por fundos ou previdência. Este texto é opinião; os fatos citados vêm das fontes listadas.
Fontes
- Ibovespa fecha em baixa de 13,9%, maior queda diária em 6 anos; dólar dispara 8,2% — Exame, 26/10/2026 (acesso em 26/10/2026)
- Lula virou em 211 cidades no segundo turno, incluindo duas capitais — Terra, 26/10/2026 (acesso em 26/10/2026)
- Confira os números do 2º turno, com 100% da apuração concluída — Revista Oeste, 26/10/2026 (acesso em 26/10/2026)
- Ibovespa dispara após eleição e supera 200 mil pontos — Correio da Manhã, 2026 (acesso em 26/10/2026)
- Ibovespa fecha acima de 206 mil pontos no maior patamar da história; dólar cai a R$ 5 — Bora Investir (B3), 05/10/2026 (acesso em 26/10/2026)
- Ibovespa hoje: alta na eleição, com recorde de 209 mil pontos — EuQueroInvestir, 05/10/2026 (acesso em 26/10/2026)
- ETFs ganham 223 mil investidores em um ano e alcançam 862 mil CPFs na B3 — B3, 17/09/2026 (acesso em 26/10/2026)
- Bolsa atrai 206 mil novos investidores em renda variável em 2025; veja estados com maior representatividade — B3, 16/01/2026 (acesso em 26/10/2026)
- Eleições 2026 em números: 158,7 milhões de eleitores estão aptos a votar — TSE (acesso em 26/10/2026)



