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A Bolsa não mede a legitimidade de uma eleição

O Ibovespa caiu 13,88% em 26 de outubro, mas a bolsa mede apostas. O que legitima a eleição são os 64.256.232 votos apurados pelo TSE.

Tribuna · ensaio assinadoArgumento e conclusões pertencem a quem assina este texto, não necessariamente à Revista 7 de Setembro.

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Fachada de pedra da Bovespa, com três arcos de entrada e o letreiro BOVESPA, e pessoas na calçada, em São Paulo
Fachada da Bovespa, sede da B3, no centro de São Paulo, em foto de 22 de dezembro de 2009.Foto: enioprado / Panoramio / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Na segunda-feira, 26 de outubro, o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos. Foi a maior queda diária em seis anos, segundo a Exame. O pregão veio um dia depois da reeleição de Lula, confirmada no domingo (25).

O Ibovespa é o índice das ações negociadas na B3, a bolsa de valores brasileira. Há quem leia a queda como veredicto sobre a eleição. Esta Tribuna discorda. O índice mede o preço de apostas. Ele não mede a vontade de quem vota.

O placar da eleição está nas urnas, apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Com 100% das urnas apuradas, Lula teve 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), segundo a Terra. Em números, foram 64.256.232 votos para Lula e 59.826.041 para Flávio, segundo a Revista Oeste, que reproduz a apuração do TSE.

O mesmo índice já tinha reagido à disputa. No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio ficou à frente, com 47,03% dos votos válidos. Na segunda-feira seguinte, 5 de outubro, o Ibovespa subiu 7,70%, para 206.911,89 pontos. A B3 registrou o fechamento no maior patamar de sua história até então, segundo a Bora Investir, publicação da própria bolsa.

A bolsa mede apostas, não votos

Os dois movimentos respondem à mesma coisa: expectativa sobre a política econômica. Em 5 de outubro, a analista Jaqueline Neo, da be.smart, disse: “O mercado está precificando a possibilidade de uma política econômica mais favorável”. Precificar é colocar uma expectativa no preço. Quando a expectativa muda, o preço muda junto.

A parcela do país que aposta na bolsa é pequena. A B3 contou 5,7 milhões de pessoas físicas, ou seja, cidadãos com CPF, em renda variável no segundo trimestre de 2026. Renda variável são aplicações cujo preço muda com o mercado, como as ações. O TSE registra 158.745.463 eleitores aptos a votar. A conta dá cerca de 3,6%.

Quem aparece em cada placar Pessoas e parte dos eleitores aptos em 2026

Grupo Pessoas Parte do eleitorado
Votos de Lula no segundo turno 64,3 milhões 40,5%
Pessoas físicas em renda variável na B3 5,7 milhões 3,6%

Fonte: TSE; B3. Cálculo da redação. Os dois grupos não se somam, porque quem investe também vota.

A conta pode ser maior se entrarem fundos e previdência, os planos privados de aposentadoria. A B3 cita fundos em seu boletim, mas as fontes consultadas não dizem quantas pessoas têm ações por esse caminho. Sem esse dado, a bolsa não pode ser tomada como retrato da maioria.

O argumento contrário tem parte verdadeira

A preocupação de quem olha o mercado é séria. Em 5 de outubro, a estrategista Rebecca Nossig, da Nomad, disse que o resultado trouxe “uma sensível melhora nas perspectivas para a trajetória da dívida pública”. A trajetória da dívida mostra como o endividamento do governo evolui ao longo do tempo. O risco fiscal é real, e o mercado tem razão em acompanhá-lo.

Dois custos também são reais. O dólar subiu 8,21% em 26 de outubro, para R$ 5,4027, a maior alta diária desde 1999, segundo a Exame. Dólar mais caro tende a encarecer produtos importados e insumos. Quem tem fundos de investimento, inclusive fundos de índice (ETFs), também sente a queda.

O que diz Rebecca Nossig, estrategista da Nomad: Em 26 de outubro, ela afirmou que o pregão foi “marcado por extrema volatilidade e forte aversão ao risco no mercado financeiro brasileiro”, segundo a Exame. A fala vem de reportagem da Exame; esta redação não falou diretamente com a analista.

Esta Tribuna reconhece esses riscos. Eles merecem debate sobre o orçamento e os juros, no governo e no Congresso. Mas são argumentos sobre política econômica, não um atestado de que o eleitor errou. Uma eleição com 64 milhões de votos não se desfaz em um pregão.

A economia que sustenta salário e emprego está nas fábricas, no comércio e nos serviços espalhados pelo país, e não cabe em um índice. A B3 mostra onde estão seus investidores: em 2025, 1,9 milhão dos quase 5,5 milhões eram de São Paulo. Minas Gerais tinha 554 mil, e o Rio de Janeiro, 550 mil.

O que fica em aberto é a política fiscal que o novo mandato vai apresentar. O mercado vai cobrar números, e a sociedade também. Esta análise não é recomendação de investimento. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar.

A bolsa mede expectativas. A legitimidade de uma eleição vem das urnas.

Como fizemos: Usamos os votos e percentuais do segundo turno publicados pela Terra e pela Revista Oeste, que reproduzem a apuração do TSE com 100% das urnas, e as cotações do Ibovespa e do dólar da Exame, da Bora Investir e do EuQueroInvestir, acessadas em 26/10/2026. A parcela do eleitorado é cálculo nosso: 64.256.232 votos e 5,7 milhões de investidores divididos por 158.745.463 eleitores aptos, arredondados. Os dados da B3 não medem quantas pessoas têm ações por fundos ou previdência. Este texto é opinião; os fatos citados vêm das fontes listadas.

Fontes