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Perder faz parte da República, e Flávio não aceita o resultado

Sem provas apresentadas, recusar um resultado de mais de 4,4 milhões de votos enfraquece a democracia que a eleição deveria proteger.

Tribuna · ensaio assinadoArgumento e conclusões pertencem a quem assina este texto, não necessariamente à Revista 7 de Setembro.

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Urna eletrônica modelo UE2020, com teclado numérico, tela escura e o selo da Justiça Eleitoral, sobre uma bancada branca
Urna eletrônica modelo UE2020, em foto divulgada pelo TSE. A imagem não mostra a apuração de 2026.Foto: Antonio Augusto / TSE / Wikimedia Commons (domínio público)

Na noite de domingo (25), com 99,9% das urnas apuradas, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro (PL) teve 48,21%. Em pronunciamento, ele disse que “é impossível reconhecer o resultado das eleições”.

A vitória foi por mais de 4,4 milhões de votos, segundo a Agência Brasil. Flávio anunciou que o PL vai pedir a anulação: “Nós vamos usar o nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições.” Esta revista defende uma tese simples. Perder faz parte da República. Recusar um resultado sem prova enfraquece a própria democracia.

A votação segue um caminho conhecido. Ao fim do dia, cada urna eletrônica imprime um boletim de urna com os votos daquela seção. Uma via fica afixada no local de votação, e os fiscais, pessoas indicadas pelos partidos para acompanhar o processo, recebem cópias, segundo a InvestNews.

Onde estão as provas

Flávio afirmou que fiscais do PL foram retirados da sala-cofre do tribunal. Ele disse: “os nossos fiscais do PL foram retirados de dentro da sala-cofre a partir do momento que essa eleição foi tomada”. A frase foi transcrita pela Gazeta do Povo.

O TSE respondeu que a afirmação “é falsa”. Segundo a corte, dois fiscais do PL estiveram no tribunal no domingo. Eles acompanharam o Teste de Integridade das Urnas, procedimento de verificação do sistema de votação, e a totalização. A sala-cofre, afirma o tribunal, não é aberta à visitação. Já a Sala de Totalização pode receber fiscais, observadores, advogados e integrantes do Ministério Público. O tribunal diz ter “registro de presença nos locais visitados, além de filmagem na Sala de Totalização”, segundo o Brasil de Fato e o Poder360.

Flávio também criticou a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que prorrogou a votação até as 19h. Segundo a Agência Brasil, o TSE informou que muitas urnas já estavam encerradas. Zanin esclareceu que a extensão valia apenas para as seções ainda abertas.

O argumento contrário é sério, e precisa ser dito por inteiro. Um candidato tem o direito de levar contestações à Justiça Eleitoral, desde que apresente provas. Flávio citou o jurídico do partido, e esse caminho existe. O problema não é recorrer. É declarar o resultado impossível de reconhecer antes que qualquer prova chegue ao tribunal.

Antes da derrota, uma condição

Em 2 de agosto, Flávio disse ao programa Canal Livre, da Band, que aceitaria o resultado: “Eu vou aceitar. Eu vou concorrer com essas regras e tenho certeza que o TSE, diferente de 2022, vai ser um TSE imparcial”. Ele deu a própria razão para aceitar: confiança no tribunal. Na segunda-feira, o próprio TSE rebateu a acusação sobre os fiscais.

A história brasileira mostra o que acontece quando um resultado eleitoral vira disputa de força. Em 1955, Carlos Luz ocupava a Presidência e era suspeito de articular para impedir a posse de Juscelino Kubitschek, eleito. Em 11 de novembro, o general Henrique Lott mandou tropas ocuparem pontos estratégicos, e Luz deixou o poder. Juscelino tomou posse em janeiro de 1956, segundo a Wikipedia em inglês.

Em 8 de janeiro de 2023, atos antidemocráticos levaram à depredação de prédios públicos em Brasília. Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou Jair Bolsonaro, por 4 votos a 1, por tentativa de golpe de Estado. A pena é de 27 anos e três meses, e só começa a valer depois do fim dos recursos. Não se trata de comparar Flávio a um condenado. Trata-se de lembrar o que a história registra quando a derrota é recusada antes de qualquer prova.

O que diz Flávio Bolsonaro: Na noite de 25 de outubro, afirmou que “é impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram” e que o PL vai pedir a anulação. As declarações foram publicadas pela Agência Brasil e pela Gazeta do Povo.

Na tarde de segunda-feira (26), segundo o Poder360, a campanha de Flávio desistiu, por enquanto, do pedido de anulação. Segundo a Folha, citada pelo jornal O Município, aliados e advogados apontaram fragilidade jurídica. A campanha prepara uma ação de cassação da chapa de Lula, por suposto abuso de poder econômico. O recuo confirma o ponto desta Tribuna: a declaração veio antes de qualquer prova.

O que segue aberto é o caminho jurídico. O PL pode levar à Justiça Eleitoral uma contestação com provas, e o tribunal vai analisá-la. Até lá, o resultado de 25 de outubro vale, e cabe ao candidato derrotado dizer isso com clareza. A democracia não exige que Flávio goste do resultado. Exige que ele respeite o jogo.

Como fizemos: Conferimos as declarações de Flávio Bolsonaro em reportagens de 25 e 26 de outubro de 2026 e na entrevista publicada em 2 de agosto. Os percentuais vêm da Carta Capital e do Brasil de Fato; a diferença de mais de 4,4 milhões de votos, da Agência Brasil. Não fizemos cálculo próprio, e não consultamos diretamente o portal de resultados do TSE, por isso o texto não cita totais de votos.

Fontes