Um ano após 122 mortes, Rio mantém memória e espera respostas
Ato na Penha marca um ano da operação mais letal do estado; MPRJ reúne 4 mil horas de vídeo, mas ainda investiga as circunstâncias das mortes.
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- Sônia Barros
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Familiares, movimentos sociais e moradores se reúnem nesta quarta-feira (28) na Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio. O ato marca um ano da Operação Contenção, que deixou 122 mortos, entre eles cinco policiais civis e militares.
A memória do dia 28 de outubro de 2025 convive com uma apuração incompleta. O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) reuniu milhares de horas de vídeo e centenas de depoimentos. Ainda não concluiu as circunstâncias de cada morte nem as responsabilidades por elas.
O que as investigações já reuniram
O Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MPRJ analisa mais de 4 mil horas de câmeras corporais. Também examina 122 laudos médico-legais e 262 depoimentos de agentes públicos, prestados por 255 pessoas, segundo a Agência Brasil.
As investigações produziram 12 denúncias contra 28 policiais militares, todas recebidas pela Justiça. Elas tratam de crimes como furto, peculato, violação de domicílio e constrangimento ilegal. Peculato é o desvio de dinheiro ou bem público por quem tem função pública. Essas acusações não representam condenações nem encerram a apuração das mortes.
Um ano de apuração em números
Registros informados pelo MPRJ sobre a Operação Contenção
| Elemento | Quantidade |
|---|---|
| Pessoas mortas | 122 |
| Horas de imagens analisadas | Mais de 4 mil |
| Laudos médico-legais | 122 |
| Policiais denunciados por outros crimes | 28 |
| Familiares de mortos ouvidos | 45 |
Fonte: MPRJ e Agência Brasil. Elaboração: redação.
As lacunas nas câmeras
A documentação da ação tem falhas relevantes. Na Polícia Civil, apenas 62 dos 685 agentes participantes usaram efetivamente câmeras corporais. A proporção equivale a cerca de 9% do efetivo.
O MPRJ também identificou agentes sem equipamento, baterias esgotadas e problemas na distribuição dos dispositivos. Em março, o procurador-geral de Justiça recomendou melhorias às polícias Civil e Militar e à Secretaria de Segurança Pública.
O governo estadual apresentou a operação como uma ofensiva contra o avanço territorial e a estrutura do Comando Vermelho. Pesquisadoras ouvidas pela Empresa Brasil de Comunicação afirmam, um ano depois, que não houve mudança significativa no controle armado dos dois complexos.
O que diz o MPRJ: o órgão informa que mantém procedimento próprio, perícias complementares e escuta de familiares. Seu objetivo é reconstruir cada episódio e cumprir os protocolos da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, ação em que o Supremo Tribunal Federal trata da letalidade policial.
Memória também é cobrança
O ato desta quarta começou com almoço comunitário. A programação previa caminhada, distribuição de cestas básicas, manifestações artísticas e soltura de balões. Coletivos de familiares de vítimas de violência de Estado participavam da mobilização.
“Queremos mais cuidado, educação e saúde pra população de favela”, afirmou Evelin Dias, assistente social e integrante da Frente Penha, à Agência Brasil. A fala resume a conexão entre memória e serviços públicos defendida pelos organizadores.
O próximo passo depende da conclusão das perícias e do confronto entre vídeos, documentos e testemunhos. Até lá, o registro preciso é este: há denúncias por condutas durante a operação, mas a investigação das 122 mortes continua aberta.
Como fizemos: Comparamos as duas reportagens da Agência Brasil publicadas nesta quarta, com dados atribuídos ao MPRJ, à Frente Penha e a pesquisadoras. Calculamos a proporção de câmeras na Polícia Civil dividindo 62 por 685. Não tratamos denúncia como prova de culpa nem como conclusão sobre as mortes.



