Memória

Cinemateca diz ter 60 mil títulos e opera por contrato com a União

No Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual, a Cinemateca Brasileira mostra o que está em jogo: dois incêndios em depósitos e uma gestão feita por contrato.

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Fachada de tijolos aparentes da sede da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, em dia nublado
Fachada da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, em dia nublado.Foto: Milena Bispo / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 27 de outubro, o Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual chama a atenção para filmes, programas de rádio e de TV que podem se perder. A Cinemateca Brasileira, em São Paulo, informa ter cerca de 60 mil títulos e cerca de 200 mil rolos de filmes. Dois incêndios atingiram depósitos da instituição, em 2016 e em 2021.

A pergunta central é quem guarda essa memória e com quais recursos. No caso da Cinemateca, a resposta passa por um contrato de gestão com o governo federal. Os fatos abaixo mostram o que está em jogo.

Um dia criado para cobrar proteção

A data lembra a Recomendação de 1980 sobre a salvaguarda e a preservação de imagens em movimento. A Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a adotou na sua 21ª reunião. Segundo a página oficial da entidade, o dia serve para alertar sobre a necessidade de medidas urgentes de proteção.

A Cinemateca começou em 1949 como Filmoteca, um arquivo de filmes do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1956, passou a se chamar Cinemateca Brasileira. Seu site a descreve como o maior acervo audiovisual da América do Sul.

Dois incêndios, dois cenários

Em 3 de fevereiro de 2016, um incêndio atingiu um galpão em Vila Clementino, na zona sul de São Paulo. Cerca de mil rolos de filmes foram queimados, segundo a própria instituição. Ela disse que a perda representou pouco menos de 0,4% do acervo.

Na época, o então secretário-executivo do Ministério da Cultura, João Brant, escreveu em uma rede social: “Pegou fogo no galpão mais isolado, mas muitas matrizes foram destruídas.”

Em 29 de julho de 2021, outro incêndio atingiu um galpão em Vila Leopoldina, na zona oeste. Não havia registro de vítimas, segundo o JB. O prédio não era a sede principal da instituição.

Segundo a Gazeta SP, que cita o G1, a perícia concluiu que o fogo foi acidental. Ele começou durante a manutenção do ar-condicionado. A análise técnica também apontou que a falta de sistema de detecção de incêndio pode ter contribuído para a propagação das chamas. Estima-se que parte do acervo da distribuidora Pandora Filmes possa ter sido queimada.

Quem administra hoje

Desde 2022, a Cinemateca é gerida pela Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), segundo o site oficial. A entidade foi escolhida por edital em novembro de 2021, para um contrato de gestão, segundo a Exame. A reabertura ao público ocorreu em 13 de maio de 2022.

Antes, o contrato com a Acerp, entidade que administrava a instituição, terminou sem que outra organização social fosse contratada, segundo o jornal O Povo. Em 2020, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação contra a União. Em junho de 2024, a Justiça Federal homologou um acordo para preservar a instituição. A reportagem não detalha as medidas previstas.

O Ministério da Cultura publica em seu portal o contrato de gestão e os termos aditivos, do primeiro ao décimo. A página indica data de publicação de 3 de julho de 2026.

O que diz a Cinemateca Brasileira: A instituição afirma em seu site que é gerida pela Sociedade Amigos da Cinemateca desde 2022 e que o acervo tem cerca de 60 mil títulos. Esta reportagem não registra contato direto com a instituição; a posição vem de sua página oficial.

O que está em aberto

O número de títulos vem da própria instituição, e a página não informa a data de referência. Por isso, o dado deve ser lido com cautela. Esta reportagem não fez cálculo próprio sobre o acervo.

O Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual lembra uma tarefa sem data de conclusão: guardar, catalogar e restaurar. Os dois incêndios mostram que o risco físico é real. A guarda do acervo depende de contrato, orçamento e fiscalização pública.

Como fizemos: Consultamos a página da Unesco sobre o dia, o site da Cinemateca, a página do Ministério da Cultura e reportagens sobre os incêndios de 2016 e 2021, acessados em 23 de outubro de 2026. O número de títulos é o informado pela instituição, sem data de referência, e não foi recalculado. Não houve cálculo próprio. Não foi possível verificar o conteúdo dos relatórios de execução do contrato de gestão.

Fontes

Temas

  • Cinemateca Brasileira
  • Patrimônio Audiovisual
  • Memória
  • Cinema Brasileiro

Sônia Barros

Repórter de Memória

Cobre memória para o Revista 7 de Setembro.

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