Herzog: a versão de suicídio caiu na Justiça e no atestado
Vladimir Herzog morreu no DOI-Codi em 25 de outubro de 1975. A versão oficial de suicídio foi derrubada pela Justiça e pela Corte Interamericana.
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Em 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog morreu nas dependências do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo. Ele era diretor de jornalismo da TV Cultura. Tinha se apresentado ao órgão para “prestar esclarecimentos”.
Naquela noite, um telex do Serviço Nacional de Informações (SNI), o serviço de informações do regime militar, afirmou que Herzog “suicidou-se”. O atestado de óbito, emitido em 27 de outubro de 1975, registrou “asfixia mecânica por enforcamento”. Segundo o Estado de Minas, a família e os amigos nunca aceitaram essa versão.
Reconstituições posteriores, relatadas pelo mesmo jornal em 2025, indicaram que a morte daquela forma seria fisicamente impossível. Tudo apontaria para tortura seguida de simulação de suicídio.
Na Justiça, a versão caiu em 1978
A família levou o caso à Justiça Federal de São Paulo. Em outubro de 1978, o juiz federal Márcio José de Moraes decidiu que a União não provou o suicídio. A sentença declarou a responsabilidade civil da União e determinou indenização à viúva e aos filhos. Recursos não derrubaram a decisão.
Em 1996, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), criada pela Lei 9.140, de 1995, reconheceu oficialmente que Herzog foi assassinado. Segundo o site Vermelho, o órgão ofereceu indenização à família. Clarice Herzog recusou, porque queria que as investigações continuassem.
Do atestado à Corte internacional
Em 24 de setembro de 2012, o juiz Márcio Martins Bonilha Filho, da 2ª Vara de Registros Públicos de São Paulo, mandou corrigir o atestado. O pedido partiu da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que investigou violações da ditadura. O novo texto diz que a morte “decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência” do DOI-Codi.
A família recebeu a nova certidão em 2013. O Ministério Público recorreu, mas a 2ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) manteve a correção em 18 de fevereiro de 2014.
Em 15 de março de 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), julgou o caso Herzog e outros vs. Brasil. A decisão foi divulgada em 4 de julho de 2018. Segundo o Congresso em Foco, a Corte considerou o Brasil responsável pela violação do direito à verdade da família.
A Corte classificou a morte como crime contra a humanidade, sem prescrição. Também considerou inadequado usar a Lei de Anistia para proteger os responsáveis. O Ministério dos Direitos Humanos respondeu, em nota, que “dará cumprimento integral à sentença”.
Como o registro sobre a morte mudou
Principais registros oficiais e judiciais, de 1975 a 2018
| Ano | Registro | Conclusão ou causa |
|---|---|---|
| 1975 | Telex do SNI e atestado de óbito | Suicídio; “asfixia mecânica por enforcamento” |
| 1978 | Sentença da Justiça Federal | União não provou o suicídio |
| 1996 | CEMDP | Assassinato reconhecido oficialmente |
| 2012 | Retificação do atestado | “Lesões e maus-tratos” no DOI-Codi |
| 2018 | Corte IDH | Brasil responsável pela violação do direito à verdade |
Fonte: documentos e reportagens citados em Fontes. Elaboração: redação.
Onde a memória é guardada
O Instituto Vladimir Herzog mantém o Acervo Vladimir Herzog, lançado em 26 de junho de 2020 com mais de 1.700 itens digitalizados. Segundo o Brasil de Fato, o acervo inclui mais de mil fotografias, 78 textos jornalísticos e 131 edições da revista Visão, que Herzog editou.
O instituto também realiza o portal Memórias da Ditadura, sobre o regime militar entre 1964 e 1985. Em 2026, o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos chegou à 48ª edição, com 346 inscrições e 21 finalistas. A cerimônia estava marcada para 20 de outubro, no Tucarena, em São Paulo.
O que diz a Advocacia-Geral da União (AGU): Em junho de 2025, a AGU anunciou acordo de cerca de R$ 3 milhões com a família para reparar violações da ditadura. Na época, o advogado-geral Jorge Messias afirmou que resolver disputas por consenso e promover a justiça histórica são “compromissos éticos da AGU”, segundo a Poder360.
O que isso significa
Os registros mostram uma trajetória clara. A versão do regime foi contestada na Justiça em 1978, corrigida no atestado em 2012 e questionada pela Corte IDH em 2018. Nas fontes consultadas, porém, não há registro de julgamento criminal de responsáveis pela morte.
Em 2025, na Catedral da Sé, Ivo Herzog disse que falta “a investigação das circunstâncias dos crimes que foram cometidos”, segundo a Agência Brasil.
Como fizemos: Reunimos sentenças, atas e reportagens citadas em Fontes, acessadas em 22 de outubro de 2026. O texto integral da sentença da Corte IDH não abriu no nosso acesso, por isso os detalhes de 2018 vêm de reportagens e de um artigo acadêmico. O registro de 1996 vem de um único veículo, o site Vermelho, e precisa ser conferido nos arquivos da CEMDP. A tabela resume datas e registros, sem cálculos próprios.
Fontes
- Clarice e o dia em que mataram o Vlado — Estado de Minas (24/10/2025)
- Parecer Caso Vladimir Herzog — Instituto Vladimir Herzog
- Juiz que condenou a União pela morte de Herzog ataca o STF — Congresso em Foco
- Justiça retifica registro de óbito de Herzog — Estado de Minas (25/09/2012)
- Família de Herzog recebe novo atestado de óbito — Estado de Minas (16/03/2013)
- Vladimir Herzog morreu por causa de lesões e maus-tratos, decide TJ-SP — Conjur (19/02/2014)
- Há 42 anos, Vladimir Herzog era assassinado pela ditadura — Vermelho
- Corte IDH condena Brasil por morte de Vladimir Herzog durante ditadura — CartaCapital
- Corte internacional condena Brasil por morte de Vladimir Herzog — Congresso em Foco (04/07/2018)
- Sobre a não aplicação pelos tribunais brasileiros da sentença da Corte Interamericana no caso Herzog — Revista de Estudos Brasileiros (USP)
- Catedral da Sé lotada rememora os 50 anos do assassinato de Herzog — Agência Brasil (25/10/2025)
- AGU pagará R$ 3 mi para família de Vladimir Herzog — Poder360
- Instituto lança acervo virtual de Vladimir Herzog — Brasil de Fato (26/06/2020)
- Memórias da Ditadura — portal realizado pelo Instituto Vladimir Herzog
- Veículos da EBC são finalistas da 48ª edição do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog — Agência Gov/EBC (22/09/2026)
- Instituto Vladimir Herzog
- Escultura em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog — Wikimedia Commons (CC BY 2.0)



