Opinião

Flávio agradeceu a tarifa de 2025 e culpou Lula pela de 2026

Segundo a Quaest, 42% dos eleitores disseram estar mais inclinados a votar em Lula por causa das tarifas dos EUA; 27% disseram o mesmo de Flávio.

OpiniãoEste é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista 7 de Setembro.

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Navio porta-contêineres carregado de contêineres coloridos navega em mar azul
Navio porta-contêineres deixa o porto do Rio de Janeiro, em junho de 2024 (foto de arquivo).Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Em 15 de julho de 2026, entraram em vigor tarifas de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Segundo a Band, Flávio Bolsonaro foi a Washington em 6 e 7 de julho e pediu ao USTR, escritório de comércio do governo americano, que suspendesse as tarifas. Depois, ele culpou o governo Lula.

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, sabemos quem paga uma tarifa. Não é o político que posa para foto em Washington. É o produtor que exporta, e o trabalhador que depende dessa venda para receber o salário no fim do mês.

Esta não foi a primeira tarifa. Em julho de 2025, Donald Trump anunciou uma taxa de 50% sobre produtos brasileiros e a ligou ao julgamento de Jair Bolsonaro, segundo o SBT News. No mesmo mês, em 30 de julho, o Tesouro americano incluiu o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na lista de sanções. Segundo o site Axios, a tarifa de 50% acabou retirada.

Duas tarifas, a mesma escolha

Repare na sequência. Em 2025, Flávio agradeceu a Trump numa postagem na rede X, no mesmo dia do anúncio. Depois, disse à CNN Brasil que se arrependeu e apagou a publicação. Em 2026, a tarifa virou problema eleitoral, e ele culpou o governo. A tabela resume as datas.

Em 2025 Flávio agradeceu a tarifa; em 2026, culpou o governo Datas e declarações sobre as tarifas dos EUA a produtos brasileiros, de julho de 2025 a julho de 2026

Data Fato O que Flávio disse
9 jul. 2025 Trump anuncia tarifa de 50% e a liga ao julgamento de Bolsonaro Agradeceu a Trump no X
25 jul. 2025 Flávio fala à CNN Brasil sobre a postagem Disse que se arrependeu e apagou o post
Maio 2026 Após encontro com Trump em Washington Prometeu parceria em terras raras, se eleito
15 jul. 2026 Entra em vigor tarifa de 25% sobre produtos brasileiros Culpou o governo Lula

Fonte: SBT News; CNN Brasil; Reuters, via The Star. Elaboração: redação.

Quem vive de vender para fora precisa de previsibilidade, ou seja, saber se o contrato fechado hoje vale no mês que vem. Uma tarifa usada como arma política destrói essa previsibilidade, seja ela aplaudida ou lamentada. Bastava pedir o fim da tarifa desde o primeiro dia, sem agradecer a quem a impôs e sem procurar culpados dentro de casa.

O que está na mesa de negociação

O tema segue aberto, seja qual for o resultado da eleição. Em 9 de outubro, a agência Reuters informou que o acesso americano aos minerais brasileiros é um ponto central de atrito num grupo de trabalho sobre as tarifas. Terras raras são minerais usados em ímãs, baterias e equipamentos de alta tecnologia.

Em maio, Flávio prometeu parcerias de longo prazo com os Estados Unidos nas terras raras, com investimento protegido, caso seja eleito, segundo a CNN Brasil. Nas reportagens consultadas, não há registro de que ele tenha proposto vender ou entregar esses minerais. Mas oferecer parceria antes de garantir o alívio das tarifas é negociar de joelhos. Flávio responde, segundo a Band, que foi a Washington defender as empresas brasileiras.

Como o eleitor reagiu

Segundo levantamento da Quaest, instituto de pesquisa, citado pela Reuters, 42% dos eleitores disseram estar mais inclinados a votar em Lula por causa das tarifas. Só 27% disseram o mesmo sobre Flávio. A diferença é de 15 pontos percentuais.

A pesquisa mede a inclinação declarada, não o voto. Mesmo assim, o número mostra que a tarifa entrou na conversa dos eleitores. Na nossa leitura, o eleitor, inclusive o de direita, percebeu a diferença entre defender o país e procurar culpados.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele responsabiliza o governo Lula pelo aumento das tarifas, segundo a Reuters. No debate da Band, em 18 de outubro, segundo o BNews, disse que foi a Washington para defender as empresas brasileiras e chamou de fake news a pergunta de Lula sobre entregar terras raras aos americanos.

O segundo turno é no domingo, 25 de outubro. Para o eleitor do interior, a pergunta é simples: quando a tarifa chegou, quem defendeu o exportador brasileiro sem condições?

A resposta está no registro de 2025 e de 2026, e não no discurso de campanha. Ninguém aqui pede que o produtor rural vote por gosto em Lula. A direita pode continuar sendo oposição dura, cobrando juros, impostos e gastos. O que não pode é entregar a bandeira do exportador a quem pôs a família acima do comércio do país.

Como fizemos: Reunimos datas e declarações de Flávio Bolsonaro a partir de reportagens da Reuters, CNN Brasil, SBT News, Band e BNews, e conferimos a sanção a Moraes no registro do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), do Tesouro americano. As páginas foram consultadas em 20 de outubro de 2026. Os números da Quaest vêm da cobertura da Reuters; não localizamos o registro desse levantamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A diferença de 15 pontos percentuais é cálculo nosso (42% menos 27%). Não encontramos confirmação independente para a viagem a Washington, o pedido ao USTR e a retirada da tarifa de 50%, e essas informações aparecem com atribuição. Os dados não mostram como cada eleitor decidiu o voto nem o efeito das tarifas sobre as exportações.

Fontes

Temas

  • Opinião
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  • Tarifaço
  • Exportações
  • Estados Unidos

Silvana Trindade

Repórter de Civismo

Cobre civismo para o Revista 7 de Setembro.

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