Opinião

Quatro batismos e um post removido: a fé como arma de campanha

Flávio se apresenta como evangélico, foi batizado quatro vezes e teve post sobre igrejas removido pelo TSE por falta de base factual.

OpiniãoEste é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista 7 de Setembro.

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Flávio Bolsonaro em entrevista no Senado diante de microfones
A campanha de Flávio usa linguagem religiosa; o TSE removeu uma publicação por falta de fatos.Foto: Senado Federal / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Flávio Bolsonaro foi batizado quatro vezes, segundo levantamento da Agência Pública, e construiu a campanha presidencial com linguagem religiosa. Em 16 de outubro, a ministra Estela Aranha mandou apagar em três horas o post “Lula não feche minha igreja”, por sugerir ameaça à liberdade religiosa sem fatos que a sustentassem.

O dado não permite afirmar se Flávio é ou não cristão. Essa identidade é pessoal e não pode ser medida por um rótulo. Permite, porém, examinar como a fé é usada politicamente, quais líderes o apoiam e onde a Justiça Eleitoral traçou limite.

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, sabemos que fé não substitui prova. A direita cristã sempre disse que verdade e responsabilidade importam. Um candidato que transforma rumor religioso em propaganda enfraquece o próprio valor que invoca.

O registro dos quatro batismos

A Agência Pública informa que Flávio se identifica como evangélico desde a juventude, influenciado pela mãe e por uma escola batista. O primeiro batismo ocorreu em Tijuca. Em 2016, ele foi batizado no rio Jordão durante viagem liderada pelo pastor Everaldo; em 2024, repetiu o rito com a esposa em Brasília; e voltou ao Jordão no início de 2026.

Batismos repetidos não provam fraude nem invalidam crença. O ponto jornalístico é que a campanha mobiliza imagens religiosas em momentos distintos. Em agosto, Flávio prometeu declarar que o Brasil pertence ao “Senhor Jesus Cristo”. Um pastor ouvido pelo Estado de Minas considerou a promessa incompatível com a Constituição e com a teologia cristã.

Em eventos da Marcha para Jesus e do centenário da Assembleia de Deus Madureira, Flávio falou em “guerra espiritual”. A expressão comunica pertencimento, mas também transforma adversários políticos em inimigos morais. O eleitor precisa saber quando está diante de uma proposta e quando está diante de um símbolo.

Fé em campanha: fatos e limites

Registro Fonte O que se pode dizer
Quatro batismos Agência Pública Biografia documentada
“Senhor Jesus Cristo” O Tempo Promessa política atribuída a Flávio
“Lula não feche minha igreja” TSE e Bereia Post removido por falta de base
Crítica da CNBB Poder360 e Metrópoles Acusação sem fatos, segundo a entidade

Fonte: dossiê, TSE e fontes citadas. Elaboração: redação.

O limite da Justiça Eleitoral

A decisão da ministra Estela Aranha não proibiu Flávio de falar sobre religião. Ela determinou a remoção de uma mensagem que insinuava fechamento de igrejas sem evidência. O veredito da checagem evangélica Bereia foi usado como contexto.

O candidato também acusou integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de espalhar um rumor sobre Nossa Senhora Aparecida. A CNBB negou a acusação e disse que não havia fatos ou provas. O conflito mostra como a campanha usa instituições religiosas como adversárias quando elas não confirmam sua narrativa.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele nega que queira retirar Nossa Senhora Aparecida do título de padroeira e afirma que a história é mentira do Partido dos Trabalhadores. Sobre o post removido, sua campanha sustenta que defendia a liberdade religiosa.

Pastores ouvidos pela Agência Pública disseram que Flávio “não parece evangélico”, citando comportamento e linguagem. Essa é opinião de entrevistados, não prova sobre sua fé. A crítica sustentada é outra: líderes religiosos questionam o uso eleitoral de símbolos, e o TSE removeu uma mensagem por falta de base.

A direita que leva a religião a sério pode cobrar coerência sem julgar a alma de ninguém. No domingo, cada eleitor decidirá se quer um governo que use a igreja como palanque ou uma política que respeite a pluralidade religiosa. O fato verificável continua diante de todos: quatro batismos, uma campanha espiritualizada e um post apagado pela Justiça.

Como fizemos: Usamos a seção 15 do dossiê, com reportagens da Agência Pública, TSE, Bereia, CNN Brasil, Poder360 e Metrópoles, acessadas em 21 de outubro de 2026. Não afirmamos que Flávio não seja cristão e não tratamos alegações de seu ex-sócio como fatos. A tabela separa biografia, declaração e decisão judicial.

Fontes