Contestar no TSE é direito; chamar de golpe, sem prova, não é
Flávio e Lula levaram ações ao TSE antes do segundo turno. Recorrer é direito de quem perde; acusar golpe sem provas, não.
Tribuna · ensaio assinadoArgumento e conclusões pertencem a quem assina este texto, não necessariamente à Revista 7 de Setembro.
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- Ítalo Muniz
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Na noite de domingo (25), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele teve 51,79% dos votos válidos, aqueles que não são brancos nem nulos. Flávio Bolsonaro (PL) teve 48,21%.
A disputa na Justiça não começou no domingo. Em 14 de outubro, a campanha de Flávio pediu ao TSE a cassação da chapa de Lula, formada pelo presidente e pelo vice. Entre 21 e 23 de outubro, a campanha de Lula fez pedido semelhante contra a chapa de Flávio, e as reportagens divergem sobre a data exata.
Contestar tem regra
A Constituição prevê o caminho para quem discorda do resultado. O artigo 14, parágrafo 10, diz que o mandato pode ser impugnado “ante a Justiça Eleitoral no prazo de quinze dias contados da diplomação”. A diplomação é o ato que oficializa os eleitos.
A mesma regra exige provas. A ação deve ser “instruída com provas de abuso do poder econômico, corrupção ou fraude”. O parágrafo 11 também pune quem age de má-fé, ao prever que o autor responde “se temerária ou de manifesta má-fé”.
Os argumentos da campanha de Flávio merecem resposta séria. Em vídeo de 26 de outubro, ele disse: “Então eu vou pedir sim a cassação da chapa do Lula por todos os abusos que ele cometeu.” Segundo a petição de 14 de outubro, entidades como o MST e a UNE teriam colocado dinheiro, pessoal e canais de comunicação na campanha petista.
O corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, aceitou processar Lula, Geraldo Alckmin e cinco dirigentes sindicais, em 15 de outubro. Ele deu 72 horas para a campanha de Flávio detalhar a conduta de outros dirigentes citados. Ou seja, o processo segue, mas ainda depende de provas.
O lado de Lula também apresenta acusações. Segundo o Metrópoles, a petição cita um aporte de US$ 24 milhões negociado com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Procurada pelo Poder360, a campanha de Flávio não havia respondido até a publicação. São acusações da petição, e nenhuma delas foi julgada.
Onde a contestação vira golpe
Golpe é tentar tomar o poder fora das regras. Quem pede cassação no TSE está dentro delas, mesmo que o pedido seja rejeitado. A diferença não está no tom da crítica. Está no método.
Romeu Zema (Novo) foi além. Em vídeo, disse: “O Lula aplicou um golpe à la Venezuela.” A frase, publicada pela BBC News Brasil e republicada pelo Correio Braziliense, não vem acompanhada de prova. As reportagens consultadas também não apresentam documento que a sustente.
As instituições responderam no sentido oposto. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, disse: “Temos absoluta segurança do processo eleitoral.” O procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou: “O respeito à vontade manifestada nas urnas fortalece as instituições democráticas.”
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), pelo Conselho Federal, declarou que “a decisão das urnas deve ser respeitada por todos, independentemente das diferenças políticas”. Partidos aliados de Flávio também reconheceram a vitória de Lula, segundo o Correio Braziliense.
Sobre a sala-cofre, Flávio acusou a Justiça Eleitoral de ter retirado os fiscais do PL do local. O TSE respondeu que “a sala-cofre do TSE não é um espaço aberto à visitação”. Essa afirmação pode ser checada com registros oficiais, e não só com discursos.
Até a publicação, não havia decisão de mérito sobre nenhum dos pedidos. Flávio deixou, por ora, o pedido de anulação, segundo o Poder360. Ele passou a pedir a cassação da chapa de Lula.
Democracia significa aceitar que a Justiça pode dar razão ao perdedor. Também significa aceitar que ela pode negar. Acusar golpe sem prova faz o contrário: mina a confiança em quem conta os votos e em quem julga os recursos.
O que diz Flávio Bolsonaro: Em vídeo de 26 de outubro, ele afirmou que vai pedir “a cassação da chapa do Lula por todos os abusos que ele cometeu”, segundo o Poder360. Na noite de 25 de outubro, ele disse ser “impossível reconhecer o resultado”, segundo a Gazeta do Povo.
Como fizemos: Lemos reportagens publicadas entre 14 e 26 de outubro de 2026, acessadas em 27 de outubro de 2026, e os textos da Constituição no site do Planalto. Não lemos as petições originais, por isso as acusações sobre o financiamento sindical e o filme Dark Horse aparecem como alegações das partes. A fala de Zema foi conferida na versão do Correio Braziliense, pois não encontramos a página original da BBC.
Fontes
- Presidente do TSE confirma reeleição de Lula e faz balanço do pleito — Agência Senado (acesso em 27/10/2026)
- Lula recebe 51,79% e Flávio, 48,21% dos votos válidos — Diario de Pernambuco (acesso em 27/10/2026)
- Flávio Bolsonaro diz que é impossível reconhecer resultado da eleição — Gazeta do Povo (acesso em 27/10/2026)
- Flávio desiste de pedir anulação da vitória de Lula nas urnas — Poder360 (acesso em 27/10/2026)
- Flávio acusa sindicatos de custearem campanha de Lula e pede ao TSE cassação da chapa — Midiamax (acesso em 27/10/2026)
- Corregedor do TSE pede mais dados em ação que aponta uso de estrutura sindical por Lula — O Liberal (acesso em 27/10/2026)
- Lula pede cassação do registro da chapa de Flávio Bolsonaro — Poder360 (acesso em 27/10/2026)
- Campanha de Lula pede cassação da chapa de Flávio por caso Dark Horse — Metrópoles (acesso em 27/10/2026)
- TSE nega acusação de Flávio sobre expulsão de fiscais de sala-cofre — Agência Brasil (acesso em 27/10/2026)
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, artigo 14 — Planalto (acesso em 27/10/2026)
- Decisão das urnas deve ser respeitada por todos, diz OAB sobre eleição de Lula — JD1 Notícias (acesso em 27/10/2026)
- Respeito à vontade dos eleitores nas urnas fortalece democracia, diz PGR — Ministério Público Federal (acesso em 27/10/2026)
- Partidos aliados de Flávio reconhecem a vitória de Lula; Zema fala em golpe — Correio Braziliense, com BBC News Brasil (acesso em 27/10/2026)



