Opinião

Flávio cobrou culpados do 8 de Janeiro; hoje quer perdão ao pai

Em 2023, Flávio queria cobrar quem tinha culpa pelo 8 de Janeiro; depois votou para reduzir penas e prometeu indulto ao pai.

OpiniãoEste é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista 7 de Setembro.

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Vidros estilhaçados e móveis quebrados no chão de um salão do Congresso Nacional, enquanto pessoas observam o estrago ao fundo
Estragos no prédio do Congresso Nacional depois da invasão de 8 de janeiro de 2023.Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

No dia 8 de janeiro de 2023, durante os ataques às sedes dos Três Poderes, o senador Flávio Bolsonaro escreveu num grupo de senadores no WhatsApp. Negou qualquer ligação do pai com os ataques. “Vamos cobrar de quem tem culpa, e DEFINITIVAMENTE não é do Bolsonaro!”, dizia a mensagem.

Naquele dia, o princípio ainda vinha antes do sobrenome. Quase quatro anos depois, ele é candidato do Partido Liberal (PL) à Presidência. Promete anistia para o pai, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), e indulto se ela não sair. Os votos dele no Congresso depois da condenação mostram por onde o princípio perdeu espaço.

Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do STF, formada por cinco ministros, condenou Jair Bolsonaro por 4 votos a 1. Foram cinco crimes, entre eles golpe de Estado, e a pena chegou a 27 anos e 3 meses de prisão, segundo a CNN Brasil. Em 25 de novembro de 2025, a condenação transitou em julgado, segundo o Poder360. Ou seja: não cabe mais recurso comum.

Flávio respondeu atacando o tribunal. Chamou o julgamento de “farsa” e defendeu a anistia, perdão dado por lei aprovada no Congresso que apaga punições de um grupo de pessoas. Em agosto de 2025, disse que havia acordo para pôr a anistia na pauta da Câmara e do Senado. Em novembro, chamou a anistia de “objetivo único” e disse não ter “compromisso nenhum” com a dosimetria, segundo O Tempo.

Da cobrança de culpados ao pedido de perdão

A mensagem de 2023 pedia que se cobrasse quem tinha culpa. Três anos e meio depois, o pedido de cobrança virou promessa de perdão. Em 28 de agosto de 2026, numa entrevista à TV Globo, Flávio disse que vai trabalhar para a anistia sair “ainda na transição”. Se ela não ocorrer, prometeu “um indulto”, o perdão de pena dado por decreto do presidente da República.

Os votos depois da condenação

Em 17 de dezembro de 2025, três meses depois da condenação, Flávio votou a favor do projeto da dosimetria. Dosimetria é a revisão do tamanho das penas, e o projeto reduz as penas dos condenados pelo 8 de Janeiro. O texto passou no Senado por 48 a 25, segundo a InfoMoney.

O presidente Lula vetou o projeto. Em 30 de abril de 2026, o Congresso derrubou o veto. Na Câmara, foram 318 votos pela derrubada e 144 contra. No Senado, foram 49 votos pela derrubada e 24 contra, segundo a Agência Senado.

Flávio comemorou a derrubada e chamou o resultado de “primeiro passo” rumo a uma anistia mais ampla, segundo a Agência Senado. Quem cobrava responsáveis no dia dos ataques votou, quase três anos depois, para diminuir as penas. A tabela reúne os três placares.

Redução de penas do 8 de Janeiro teve maioria nas três votações Votos a favor e contra a redução, na Câmara e no Senado, em 2025 e 2026

Votação A favor Contra
Câmara, derrubada do veto (30/4/2026) 318 144
Senado, derrubada do veto (30/4/2026) 49 24
Senado, aprovação do projeto (17/12/2025) 48 25

Fonte: Agência Senado; InfoMoney. Elaboração: redação.

A família acima do tribunal

O sobrenome também pesa no caso do irmão. Em 16 de junho de 2026, o STF condenou Eduardo Bolsonaro por coação no curso do processo, a 4 anos e 2 meses de prisão. Coação é usar ameaça para forçar alguém a agir contra a própria vontade. O tribunal concluiu que ele buscou tarifas e sanções dos Estados Unidos para impedir a condenação do pai, segundo a Agência Brasil.

Eduardo não recuou. Segundo o Poder360, ele diz que vai atuar nos Estados Unidos pela volta das sanções contra o ministro Alexandre de Moraes se Flávio vencer. A condenação ainda cabe recurso, segundo a Agência Brasil. Ou seja: o projeto da família inclui pressão estrangeira sobre um tribunal brasileiro.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em entrevista à TV Globo, em 28 de agosto de 2026, ele afirmou que o julgamento do pai foi “uma farsa orquestrada por magistrados que são inimigos declarados de Bolsonaro”. Disse que vai trabalhar pela anistia “ainda na transição” e, se ela não ocorrer, promete “um indulto”. Fonte: Euronews, que reproduziu a entrevista.

O que isso significa

Conservar é a palavra que dá nome ao conservador. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, sabemos o que vale a pena conservar: a lei igual para todos, os tribunais, a palavra dada. Um sobrenome não está nessa lista. Um conservador pode discordar de uma sentença, recorrer e propor mudanças na lei.

O que não pode é tratar a Justiça como inimiga quando ela alcança alguém da própria família. Isso não é defesa de princípio. É defesa de parente. No segundo turno, no domingo (25), o eleitor conservador pode escolher conservar o que importa: a lei igual para todos, acima de qualquer sobrenome.

Como fizemos: Reunimos datas, votos e penas a partir de reportagens e documentos públicos, verificados em 20 de outubro de 2026 e listados em Fontes. Os placares são os totais publicados pela Câmara e pelo Senado; a tabela não traz votos individuais, porque não localizamos o voto de Flávio na derrubada do veto. Não houve correção pela inflação, pois o texto não compara valores em dinheiro. Os dados não mostram as motivações de cada parlamentar nem o resultado futuro de recursos e eleições.

Correção: A versão anterior dizia que o Congresso derrubou o veto por 49 a 24 com o voto de Flávio. Os 49 a 24 foram do Senado; a Câmara votou 318 a 144, e não localizamos o voto individual de Flávio nessa votação. Também não localizamos a defesa de anistia ampla em novembro de 2024; a referência mais antiga encontrada é de agosto de 2025. A mensagem de 2023 também foi citada como pedido de punição, mas a frase original fala em cobrar quem tem culpa.

Fontes

Temas

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  • 8 de Janeiro
  • Indulto
  • STF

Lucílio Nascimento

Colunista de Memória

Escreve no Revista 7 de Setembro sobre memória.

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