História

Rio Grande do Norte abriu o voto às mulheres em 1927, antes do país

Lei potiguar de 1927, Código Eleitoral de 1932 e Constituições de 1934 e 1946: o que cada regra permitia às mulheres até a igualdade de 1965.

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Mulher de chapéu ao centro, cercada por homens de terno diante de uma mesa e de uma bandeira, em fotografia antiga
Posse da prefeita Luíza Alzira Soriano, em Lajes (RN), em 1º de janeiro de 1929.Foto: Autor desconhecido / Arquivo Nacional / Wikimedia Commons (domínio público)

Em 25 de outubro de 1927, o Rio Grande do Norte editou a lei estadual nº 660, que acabou com a distinção de sexo para votar. Em novembro, a professora Celina Guimarães Viana, de Mossoró, pediu para se alistar como eleitora.

Segundo O Povo, Celina foi a primeira mulher alistada como eleitora no Brasil. O voto feminino em todo o país só foi garantido em 1932. Entre essas datas, cada regra permitia coisas diferentes.

Rio Grande do Norte saiu na frente

Segundo o Senado, o estado foi o primeiro a afastar a distinção de sexo no voto. A professora Fernanda Abreu, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), resume: “Celina não teria se alistado e Alzira não teria podido se candidatar.”

Júlia Alves Barbosa Cavalcante, de Natal, pediu o alistamento no mesmo dia e foi a segunda eleitora do Brasil, segundo O Povo. Celina votou em 5 de abril de 1928, também segundo O Povo.

Em 1928, Luíza Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes, pelo Partido Republicano, com 60% dos votos válidos. Ela tinha 32 anos. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi a primeira prefeita do Brasil e da América Latina. A candidatura partiu de uma indicação da advogada feminista Bertha Lutz.

Alzira tomou posse em 1º de janeiro de 1929 e perdeu o cargo com a Revolução de 1930, segundo o Poder360. Os relatos divergem sobre quanto tempo ela ficou no cargo.

1932: voto em todo o país, com condições

O Código Eleitoral, Decreto nº 21.076, foi assinado por Getúlio Vargas em 24 de fevereiro de 1932. Ele deu o voto às mulheres em todo o país. Também criou a Justiça Eleitoral, que organiza as eleições, e o voto secreto, segundo o TSE.

O direito tinha condições. Segundo o Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe (TRE-SE), só votavam mulheres casadas com autorização do marido, e viúvas e solteiras com renda própria.

A bióloga Bertha Lutz fundou, em 1922, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF). A entidade lutou pelo voto. Segundo a Câmara dos Deputados, ela queria “assegurar à mulher direitos políticos e preparação para o exercício inteligente desses direitos”.

De 1934 a 1965: obrigação e igualdade

A Constituição de 1934 deu voto a brasileiros e brasileiras maiores de 18 anos. Para as mulheres, o voto só era obrigatório se elas exercessem função pública remunerada. As demais podiam votar, sem obrigação.

A Constituição de 1946 tornou o alistamento e o voto obrigatórios para brasileiros de ambos os sexos, com exceções previstas em lei. Um estudo acadêmico aponta que o Código de 1950 ainda dispensava mulheres sem profissão remunerada.

A igualdade plena veio em 1965. Segundo a Câmara, a lei daquele ano tornou obrigatórios o alistamento e o voto das mulheres, em pé de igualdade com os homens.

Voto feminino ganhou regras diferentes em cada etapa Marcos legais que afetaram o voto das mulheres, de 1927 a 1965

Ano Regra O que permitia às mulheres
1927 Lei estadual nº 660 (RN) Alistar-se e votar sem distinção de sexo, no RN
1932 Código Eleitoral (Decreto nº 21.076) Voto em todo o país, com condições para casadas, viúvas e solteiras
1934 Constituição Voto facultativo, salvo para quem exercia função pública remunerada
1946 Constituição Voto obrigatório para ambos os sexos, com exceções em lei
1965 Código Eleitoral (Lei nº 4.737) Obrigação igual para homens e mulheres

Fonte: TSE, Câmara dos Deputados, Senado e textos constitucionais citados no texto. Elaboração: redação.

O que diz o TSE: Em página publicada em fevereiro de 2021, o tribunal informa que o Decreto nº 21.076 concedeu o voto feminino, criou a Justiça Eleitoral e instituiu o voto secreto.

O que isso significa

No domingo (25 de outubro), o eleitorado volta às urnas para o segundo turno. Mais de três décadas separaram o voto feminino nacional, de 1932, da obrigação igual para homens e mulheres, de 1965.

Hoje, a regra é a mesma para os dois sexos. O direito que Celina exerceu em 1928 foi construído por leis que mudaram em etapas.

Como fizemos: Conferimos datas e nomes em páginas do TSE, da Câmara dos Deputados, do Senado, do Poder360 e do O Povo, acessadas em 23 de outubro de 2026. Não conseguimos abrir os textos oficiais do Decreto nº 21.076 nem das Constituições de 1934 e 1946; as regras foram checadas em reproduções citadas por essas fontes. As datas do primeiro voto de Celina divergem entre fontes (11 de novembro de 1927 ou 5 de abril de 1928); o texto segue o O Povo. Não há cálculo próprio.

Fontes

Temas

  • Voto Feminino
  • Código Eleitoral
  • Rio Grande do Norte
  • Bertha Lutz

Denise Correia

Repórter de História

Cobre história para o Revista 7 de Setembro.

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