História

Bolsas levaram de um ano a 34 anos para se recuperar de grandes quedas

Ibovespa, Nasdaq e Nikkei mostram que recuperações variam muito; a história não garante que a próxima queda será revertida.

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Letreiro dourado com a palavra BOVESPA sobre grades de ferro em uma fachada no centro de São Paulo
Letreiro da Bovespa em fachada no centro de São Paulo, em foto de 2015; a bolsa paulista hoje se chama B3.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Na segunda-feira (26), o Ibovespa fechou em 176.608,23 pontos, com queda de 13,88%, segundo o InfoMoney. O índice é o principal da B3, a bolsa de valores de São Paulo. Em 9 de outubro, ele tinha atingido o maior fechamento de sua história, com 209.066,90 pontos, segundo o Suno Notícias.

Diante de uma queda assim, muitos investidores perguntam se quedas fortes costumam ser seguidas de recuperação. A resposta depende do caso. O histórico de grandes bolsas mostra recuperações em cerca de um ano e outras que levaram décadas.

Quando a queda foi seguida de recuperação

O caso mais rápido é o de 2020, no início da pandemia de covid-19. Em março daquele ano, o Ibovespa caiu 29,9%, segundo o Jornal Contábil. Na mínima do dia 23, chegou a 62.161 pontos, segundo o InfoMoney. Isso foi cerca de 48% abaixo do patamar de 120 mil pontos de janeiro.

Em 7 de janeiro de 2021, o índice fechou em 122.385 pontos e superou o recorde de 23 de janeiro de 2020, segundo O Antagonista. Foram menos de 12 meses entre o pico anterior e a volta a ele.

A tese de que o pânico exagera tem base acadêmica. Em 1985, Werner De Bondt e Richard Thaler publicaram no Journal of Finance o artigo “Does the Stock Market Overreact?”. Eles argumentaram que investidores reagem em excesso a notícias. Segundo eles, ações que mais tinham caído renderam acima do normal nos anos seguintes.

O estudo foi contestado. Críticos propuseram explicações como acaso e risco não medido, e o próprio Thaler descreveu o trabalho como controverso. Por isso, a tese vale como tendência média, não como regra.

Quando o pânico durou anos

Em 2008, o Ibovespa chegou a cerca de 73,5 mil pontos, em 20 de maio. No ano, caiu 41,22%, segundo a Tribuna do Norte. A queda não veio em um só dia. Seis das dez maiores quedas diárias do índice desde 2000 ocorreram em 2008, segundo o Suno Notícias. A maior foi de 11,39%, em 15 de outubro.

O recorde de 2008 só foi superado em 11 de setembro de 2017, com fechamento de 74.403 pontos, segundo a Forbes Brasil. Os dados eram preliminares. Foram pouco mais de nove anos.

Casos mais longos vieram de fora. O Nikkei, índice da Bolsa de Tóquio, fechou em 38.915,87 pontos em 29 de dezembro de 1989, segundo a Nippon.com. Em 9 de março de 2009, fechou em 7.086,03 pontos, o menor nível desde 1982, segundo o Japan Times. O recorde só foi superado em 22 de fevereiro de 2024, após 34 anos e 2 meses.

O Nasdaq, nos Estados Unidos, fechou em 5.048,62 pontos em 10 de março de 2000 e caiu até 1.114,11 em 2002. Só em 23 de abril de 2015 superou aquele recorde, cerca de 15 anos depois, segundo a Reuters.

No Brasil, 2015 foi o terceiro ano seguido de queda. O Ibovespa recuou 13,31% e fechou em 43.349 pontos, segundo a InfoMoney. Em 11 de janeiro de 2016, chegou a 39.950 pontos, o menor nível desde 17 de março de 2009, segundo a Exame. Em 2016, o índice subiu 38,94%, segundo a InfoMoney.

A tabela resume os episódios verificados.

Quedas fortes e tempo até o recorde anterior, em cinco episódios Quedas como indicadas em cada linha; prazos entre datas. Percentuais de pico a fundo são cálculo da redação.

Episódio Queda Recuperação do recorde Fonte
Japão, Nikkei (1989–2009) -81,8%: de 38.915,87 (29/12/1989) para 7.086,03 (09/03/2009) 34 anos e 2 meses (22/02/2024) Nippon.com; Japan Times
EUA, Nasdaq (2000–2002) -77,9%: de 5.048,62 (10/03/2000) para 1.114,11 (2002) cerca de 15 anos (23/04/2015) Reuters, via Fortune
Brasil, Ibovespa (2008) -41,22% no ano; -11,39% em 15/10/2008 pouco mais de 9 anos (11/09/2017) Tribuna do Norte; Suno; Forbes Brasil
Brasil, Ibovespa (2020) cerca de -48%: de cerca de 120 mil (jan/2020) para 62.161 (23/03/2020) menos de 12 meses (07/01/2021) InfoMoney; Jornal Contábil; O Antagonista
Brasil, Ibovespa (2015–2016) -13,31% em 2015 (43.349 em 30/12/2015) não verificado nesta análise InfoMoney; Exame

Fonte: reportagens listadas em Fontes, acessadas em 26/10/2026. Elaboração: redação.

O que isso significa

Os casos mostram prazos de menos de um ano a mais de três décadas. Nenhum deles permite prever o tamanho ou a duração da próxima queda. Só se sabe onde estava o fundo depois que ele passou.

Em 2008, o pânico não terminou na primeira grande queda. Em 12 de novembro, o Ibovespa ainda caiu 7,75% em um só dia, segundo o Suno Notícias. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Desempenho passado não garante retorno futuro.

O que diz a pesquisa de De Bondt e Thaler (1985): os autores defendem que investidores reagem em excesso a notícias dramáticas, segundo o resumo do artigo publicado no Journal of Finance. A redação não contatou os autores; o artigo está no DOI indicado em Fontes.

Como fizemos: Usamos fechamentos e variações divulgados por InfoMoney, Suno Notícias, Jornal Contábil, Tribuna do Norte, Exame, Forbes Brasil, O Antagonista, Reuters (via Fortune), Nippon.com e Japan Times, acessados em 26 de outubro de 2026. Os percentuais de pico a fundo e os prazos entre datas são cálculos nossos, a partir desses números, arredondados. Os números de 2008 e 2015 vêm de reportagens, não de séries diárias da B3, que não conseguimos verificar aqui; por isso, não incluímos 2002 nem estudos de gestoras. Este texto usa 9 de outubro de 2026 como recorde porque ele superou o fechamento de 5 de outubro (206.911,89 pontos), que outra reportagem do site cita como recorde.

Fontes