História

Em 2002 o mercado temeu Lula; em 2003, o Ibovespa quase dobrou

O dólar chegou a R$ 3,95 em outubro de 2002. Em 2003 o Ibovespa subiu 97%, com juros altos e um boom de commodities por trás.

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Torres de vidro escuro e concreto da sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, sob céu claro
Edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, instituição cujas séries históricas de dólar e juros embasam a análise.Foto: Banco Central do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 22 de outubro de 2002, a cotação de venda do dólar foi de R$ 3,9552, a maior do ano, segundo a série diária do Banco Central (BC). A eleição presidencial ainda não tinha terminado. O mercado já reagia à chance de vitória de Lula.

O medo foi real, e ele aparece nos números. Mas a alta que veio depois teve mais de uma causa. Esta análise compara o que o mercado temia, o que o governo fez e o que acontecia no mundo.

Em 22 de junho de 2002, Lula divulgou a Carta ao Povo Brasileiro. O texto falava em uma transição “lúcida e criteriosa”, feita por negociação nacional, e não por decretos. Uma de suas frases mais citadas dizia: “Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país”, segundo o Congresso em Foco, que reproduziu o trecho. Em setembro de 2002, o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou um acordo de crédito de 15 meses, de cerca de US$ 30,4 bilhões. O próprio FMI registrou que a possibilidade de vitória de Lula causou saídas substanciais de capital do país.

O risco-país também subiu. O CDS, um contrato que funciona como seguro contra o calote da dívida, chegou a 3.790 pontos-base no fechamento de setembro, segundo o Poder360. Um ponto-base vale um centésimo de ponto percentual. É outra medida. O EMBI+, índice de risco do banco JP Morgan, não conseguimos conferir para setembro e outubro de 2002.

Antes da posse, o medo tinha números

O Ibovespa, índice das ações negociadas na B3, a Bolsa de São Paulo, fechou 2002 aos 11.268 pontos, segundo o Yahoo Finance. A queda foi de 17,01% no ano, de acordo com a Mais Retorno.

O dólar também subiu forte nas semanas da eleição. Entre 2 de setembro e 22 de outubro, a cotação de venda foi de R$ 3,0286 para R$ 3,9552, uma alta de 30,6%. Esse cálculo é nosso, com dados do BC.

A Carta não encerrou a dúvida. Depois do pico de 22 de outubro, o dólar recuou, mas ainda fechou o mês a R$ 3,6450. Em 31 de dezembro de 2002, estava a R$ 3,5333.

Depois da posse, a Bolsa subiu com ajuda externa

Em 2003, o câmbio virou. O dólar fechou o ano a R$ 2,8892, cerca de 26,9% abaixo do pico de outubro de 2002, segundo o BC. Já o Ibovespa subiu 97,34% e fechou aos 22.236 pontos, quase o dobro de 2002, segundo a Mais Retorno e o Yahoo Finance.

O ajuste fiscal também aparece na conta. O superávit primário, a economia que o governo faz antes de pagar os juros da dívida, chegou a 4,32% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2003. A meta era de 4,25%, acertada com o FMI, segundo o BC citado pelo InfoMoney. Em 2002, o número tinha sido de 3,89%.

O lado mais duro foi o juro. A meta da Selic, a taxa básica de juros do país, subiu de 25% no fim de 2002 para 26,5% em 20 de fevereiro de 2003. Só caiu para 16,5% no fim de 2003, segundo a série do BC. Juros altos encarecem o crédito e a dívida pública. Esse dado não combina com a imagem de um governo só expansionista.

Parte da alta veio de fora. Um estudo do BNDES, publicado em 2012, diz que a ascensão da China mudou os termos de troca do Brasil. Os termos de troca comparam o que o país recebe pelo que vende com o que paga pelo que compra. Segundo o estudo, os preços das commodities subiram, enquanto os produtos manufaturados ficaram mais baratos. Para um país forte em commodities, como o Brasil, a mudança foi favorável.

Entre 2002 e 2007, o Ibovespa foi de 11.268 para 63.886 pontos, em fechamentos de dezembro, segundo o Yahoo Finance. Em 2007, subiu 43,65% no ano, segundo a Mais Retorno. No mesmo período, o dólar caiu para R$ 1,7713.

Dólar caiu e Ibovespa subiu depois da posse de Lula Valores nominais, em reais (dólar) e em pontos (Ibovespa), com a data de referência

Indicador Data Valor
Dólar, cotação de venda (maior de 2002) 22/10/2002 R$ 3,9552
Dólar, cotação de venda 31/12/2002 R$ 3,5333
Dólar, cotação de venda 31/12/2007 R$ 1,7713
Meta Selic, taxa básica de juros 31/12/2002 e 20/02/2003 25% e 26,5% ao ano
Ibovespa, fechamento (2002, variação de -17,01%) Dezembro de 2002 11.268 pontos
Ibovespa, fechamento (2003, variação de +97,34%) Dezembro de 2003 22.236 pontos
Ibovespa, fechamento (2007, variação de +43,65%) Dezembro de 2007 63.886 pontos
Superávit primário (economia antes dos juros) 2003 4,32% do PIB

Fontes: Banco Central (séries 1 e 432 do SGS); Yahoo Finance; Mais Retorno; InfoMoney, com dados do BC. Elaboração: redação.

O que os dados mostram é um pânico que perdeu força depois da posse. Ele não foi a única força em jogo. Juros altos, superávit fiscal e o boom de commodities aparecem junto com a alta, mas os dados não mostram quanto pesou cada um.

Olhar para 2002 não permite prever o que vem depois de 2026. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar antes de acalmar. Esta reportagem não é recomendação de investimento.

O que diz o Banco Central: A instituição publica as séries diárias do dólar e da meta Selic em seu sistema de dados abertos, o Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS). A redação não fez contato direto com o BC para esta análise.

Como fizemos: Usamos a série 1 (dólar, cotação de venda, diária) e a série 432 (meta Selic) do SGS do Banco Central, acessadas em 26 de outubro de 2026. Os fechamentos do Ibovespa vêm do Yahoo Finance (índice ^BVSP, valores de dezembro), conferidos com as variações anuais da Mais Retorno. Calculamos as variações e as proporções a partir desses valores, em reais nominais, sem correção pela inflação. Não conseguimos confirmar, em fonte aberta, o valor do EMBI+ em setembro e outubro de 2002, por isso não o usamos. Os dados não mostram o efeito isolado de cada fator sobre a Bolsa.

Fontes