Independência custou quase dois anos de guerra, da Bahia à Cisplatina
Depois do 7 de Setembro, tropas fiéis a Lisboa resistiram em várias províncias até 1824, e Portugal só reconheceu o novo país em 1825.

Em 2 de julho de 1823, tropas brasileiras entraram em Salvador. O general português Inácio Luís Madeira de Melo havia deixado a cidade por mar, com seus soldados. A data, feriado na Bahia até hoje, encerrou mais de um ano de combates.
O episódio mostra algo que o calendário cívico às vezes esconde. O 7 de setembro de 1822 não acabou com o domínio português. Em várias províncias, juntas de governo e tropas fiéis às Cortes de Lisboa, o parlamento português, se recusaram a obedecer a D. Pedro.
Por que houve guerra
Em 1822, o Brasil não era um bloco único. As províncias do Norte e do Nordeste tinham laços diretos com Lisboa, muitas vezes mais fortes do que com o Rio de Janeiro. Salvador, São Luís, Belém e Montevidéu abrigavam guarnições portuguesas.
Para enfrentá-las, o governo do Rio montou tropas e uma esquadra às pressas. Contratou militares estrangeiros, como o francês Pierre Labatut, que comandou as forças de terra na Bahia. O britânico Thomas Cochrane assumiu o comando da Marinha.
Bahia, Piauí, Maranhão e Pará
Na Bahia, a luta começou antes do 7 de Setembro. Em 25 de junho de 1822, a Câmara de Cachoeira reconheceu a autoridade de D. Pedro, e tropas portuguesas atacaram a vila, segundo a Agência Senado. Daí em diante, o Recôncavo cercou Salvador por terra.
A Batalha de Pirajá, em novembro de 1822, foi um dos principais combates. Em 1823, a esquadra de Cochrane fechou o porto. Isolado por terra e mar, Madeira de Melo embarcou de volta a Portugal.
No Piauí, o confronto mais lembrado é a Batalha do Jenipapo, em 13 de março de 1823, em Campo Maior. Vaqueiros e lavradores piauienses e cearenses, mal armados, enfrentaram as tropas do major João José da Cunha Fidié. Os brasileiros perderam, mas Fidié recuou para Caxias, no Maranhão, onde se rendeu meses depois.
No Maranhão, a adesão ao Império foi proclamada em São Luís em 28 de julho de 1823, após a chegada da esquadra de Cochrane. Em seguida, o oficial John Pascoe Grenfell foi enviado a Belém. O Grão-Pará aderiu em 15 de agosto de 1823.
A guerra no Norte deixou também uma tragédia. Em outubro de 1823, centenas de presos morreram sufocados no porão do navio Palhaço, ancorado em Belém.
Cisplatina e o reconhecimento
Na Cisplatina, atual Uruguai, a tropa portuguesa ficou em Montevidéu até o início de 1824. Com sua retirada, não restava força militar de Lisboa no território do Império.
Faltava o reconhecimento diplomático. Os Estados Unidos reconheceram o Brasil em 1824. Portugal só o fez pelo Tratado de Paz e Aliança, assinado no Rio de Janeiro em 29 de agosto de 1825, com mediação britânica. Uma convenção ligada ao acordo previu o pagamento de 2 milhões de libras esterlinas a Portugal.
O que diz o Senado: Em reportagem sobre a sessão solene do Congresso pelos 200 anos do 2 de Julho, em 5 de julho de 2023, a Agência Senado registrou que a data lembra a expulsão do exército português da Bahia, após mais de um ano de batalhas. O senador Jaques Wagner, que presidiu a sessão, afirmou que a resistência baiana foi decisiva para a unidade nacional.
Lembrar essas guerras muda a forma de ler a Independência. A unidade do território não estava garantida em 1822. Ela foi decidida em combates no Recôncavo, no sertão do Piauí e nos rios da Amazônia, com a participação de soldados, vaqueiros, mulheres e escravizados. Esse capítulo merece o mesmo espaço do Ipiranga nas aulas de história.
Fontes
- Congresso celebra bicentenário da independência da Bahia — Agência Senado
- Homenagem aos Duzentos Anos da Batalha do Jenipapo — Câmara dos Deputados
- Batalha do Jenipapo — Cultura na Câmara, Câmara dos Deputados
- A desagregação do império: Portugal e o reconhecimento do Estado brasileiro (1824-1826) — Valentim Alexandre, Análise Social


