Civismo

Plano de Flávio para o STF exige 308 deputados e 49 senadores

O plano registrado no TSE tira do STF processos criminais, mas quase tudo depende de emenda à Constituição com três quintos dos votos em cada Casa.

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Fachada do edifício-sede do Supremo Tribunal Federal, com suas colunas de concreto, em Brasília
Fachada do edifício-sede do Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes, em Brasília (foto de 17 de fevereiro de 2025).Foto: Pedro França / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 13 de agosto de 2026, Flávio Bolsonaro registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o plano de governo “Para o Brasil vencer o atraso”. Um dos capítulos trata do Judiciário e propõe mudanças no Supremo Tribunal Federal (STF).

O plano quer tirar do STF os processos criminais, limitar decisões individuais dos ministros e criar uma quarentena, um prazo de espera de um ano, para novas indicações. Quase todas essas mudanças dependem de uma emenda à Constituição, chamada de Proposta de Emenda à Constituição (PEC). O que decide o destino do plano é, portanto, o número de votos que o Congresso teria de reunir.

Hoje, o STF julga diretamente crimes comuns de algumas autoridades, como o presidente, o vice, ministros de Estado, parlamentares e os próprios ministros da Corte. É o foro por prerrogativa de função, o direito de ser julgado por um tribunal superior por causa do cargo. Segundo o Congresso em Foco, o plano transfere esses casos ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e aos tribunais regionais federais (TRFs). Os parlamentares estão entre os afetados.

O que o plano muda

Decisões monocráticas são as que um ministro toma sozinho, com força de decisão do tribunal. Elas costumam servir a casos urgentes e podem ser revistas pelo colegiado. O plano quer restringi-las e presumir que as leis aprovadas pelo Congresso são constitucionais. Não define em quais casos haveria exceção.

A quarentena mexe na regra de indicação. Hoje, o presidente escolhe o ministro e o Senado aprova, sem prazo de espera. Pelo plano, ministros de Estado teriam de esperar um ano depois de deixar o cargo. Essa regra também dependeria de aprovação do Congresso.

O caminho é o quórum

Uma PEC precisa de quórum alto: ser aprovada em dois turnos na Câmara e no Senado, com três quintos dos membros de cada Casa, ou seja, 60%. Com a composição atual, são 308 deputados e 49 senadores, como mostra a tabela. Para indicar um ministro ao STF, o Senado precisa de 41 votos, mais da metade de seus 81 membros. Ou seja, mudar a regra exige mais votos do que aplicá-la.

Aprovar uma PEC exige 308 deputados e 49 senadores Votos mínimos por Casa, em número de parlamentares, com a composição atual (legislatura 2023–2027)

Votação Câmara (513) Senado (81)
PEC: três quintos dos membros de cada Casa 308 49
Indicação ao STF: maioria absoluta do Senado não se aplica 41

Fonte: Constituição Federal, artigos 60, §2º, e 101, parágrafo único; composição atual da Câmara e do Senado. Cálculo da redação, com arredondamento para cima. Elaboração: redação.

O tribunal que julga a família

O mesmo STF condenou Jair Bolsonaro, pai do candidato, a 27 anos e 3 meses de prisão. A Primeira Turma decidiu por 4 votos a 1, em 11 de setembro de 2025. A condenação transitou em julgado em 25 de novembro de 2025, quando já não cabia mais recurso comum.

Flávio também é investigado no mesmo tribunal. Em 22 de julho de 2026, o ministro André Mendonça o incluiu como investigado, a pedido da Polícia Federal (PF) e com aval da Procuradoria-Geral da República (PGR). A apuração, que segue sob sigilo, trata de suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Segundo a Agência Brasil, o caso envolve R$ 61 milhões que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro teria destinado ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Flávio confirmou ter pedido dinheiro a Vorcaro, mas diz que era patrocínio privado para o filme e que o projeto não usou dinheiro público. Em nota de 13 de maio de 2026, ele afirmou: “Não ofereci vantagens em troca. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem.” Segundo a Revista Oeste, a equipe da campanha considera “inegociável” o impeachment de Alexandre de Moraes, relator do processo do pai. Parlamentares aliados também articulam incluir o ministro Flávio Dino entre os possíveis alvos de impeachment, segundo a mesma reportagem.

O que diz Flávio Bolsonaro: segundo a reportagem sobre o plano, o STF “acumulou funções em excesso” e as mudanças buscam o “equilíbrio entre os Poderes”. Em nota de 13 de maio de 2026, ele nega ter oferecido vantagens ou recebido dinheiro. Em setembro de 2025, chamou o julgamento do pai de “farsa”.

O que isso significa

Os dados mostram um obstáculo concreto: sem 308 deputados e 49 senadores, quase todas as mudanças do capítulo não saem do papel. No segundo turno, em 25 de outubro, o eleitor escolhe entre Flávio Bolsonaro e Lula.

O plano, segundo as reportagens consultadas, não trata do processo que envolve o próprio candidato. A pergunta que fica é se a reforma protege a Corte ou o caso de quem a propõe.

Como fizemos: Usamos o plano registrado no TSE em 13 de agosto de 2026, como descrito por reportagens, porque não conseguimos abrir o PDF oficial. Os artigos da Constituição foram conferidos em fontes secundárias, e os cálculos usam a composição atual do Congresso, de 513 deputados e 81 senadores. Três quintos foram arredondados para cima, e não incluímos o projeto que elevaria a Câmara para 531 deputados, vetado em 2025, porque não confirmamos se o veto caiu. Consultamos as fontes em 21 de outubro de 2026; o caso segue sob sigilo, e os dados não mostram seu desfecho.

Fontes

Temas

  • STF
  • Reforma do Judiciário
  • Flávio Bolsonaro
  • Constituição

Vanessa Queiroz

Editora de História

Edita a cobertura de história do Revista 7 de Setembro.

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