Maria Quitéria, a soldado que lutou disfarçada pela Independência
Alistada como soldado Medeiros na Bahia, em 1822, ela foi condecorada por D. Pedro I e hoje é patrona de um quadro de oficiais do Exército.

Em 20 de agosto de 1823, no Rio de Janeiro, D. Pedro I assinou um decreto em favor de uma mulher da Bahia. O texto permitia a Maria Quitéria de Jesus usar a insígnia de cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro. O motivo, segundo o documento guardado pelo Arquivo Nacional, eram seus serviços militares.
Meses antes, ela usava outro nome: soldado Medeiros. Para entrar na tropa, cortou o cabelo e vestiu as roupas do cunhado, José Cordeiro de Medeiros.
Da fazenda à tropa
Maria Quitéria nasceu em 27 de julho de 1792, em São José das Itapororocas, área que hoje pertence a Feira de Santana (BA). A data é da MultiRio, empresa de conteúdo educativo da Prefeitura do Rio.
Em 1822, a Bahia estava em guerra. Tropas portuguesas ocupavam Salvador, e os defensores da Independência se reuniam no Recôncavo, a região em volta da Baía de Todos-os-Santos. Segundo o Arquivo Nacional, ela tinha cerca de 30 anos quando deixou a fazenda do pai para se alistar como voluntária, na vila de Cachoeira.
O pai foi contra e, depois, tentou tirá-la do quartel. Os comandantes preferiram mantê-la, segundo a MultiRio. O Arquivo Nacional registra que ela continuou na tropa mesmo depois que todos souberam que era mulher.
Ela serviu no Batalhão dos Voluntários do Príncipe, apelidado de “Periquitos” por causa dos detalhes verdes da farda. O general Pedro Labatut, que comandava o chamado Exército Pacificador, concedeu a ela as honras de primeiro-cadete.
Honras e esquecimento
Em 2 de julho de 1823, as tropas portuguesas deixaram Salvador, e Maria Quitéria desfilou com seu batalhão. Pouco depois, viajou ao Rio. Lá, além da insígnia, recebeu um soldo de alferes, o salário de um oficial de patente baixa.
Na capital, ela conheceu a escritora britânica Maria Graham, que a descreveu no livro “Diário de uma viagem ao Brasil”. A pedido dela, segundo a MultiRio, o imperador escreveu ao pai pedindo que perdoasse a desobediência da filha.
A vida depois da guerra é pouco documentada. Maria Quitéria morreu em Salvador, em 21 de agosto de 1853, aos 61 anos. Segundo o Arquivo Nacional, ela “aparentemente morreu pobre e no anonimato”.
O reconhecimento oficial veio bem depois. Em 1996, um decreto presidencial a tornou patrona do Quadro Complementar de Oficiais (QCO) do Exército. O QCO reúne oficiais com curso superior, que entram na Força por concurso.
Em 2018, a Lei 13.697 inscreveu seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. O livro fica no Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. A mesma lei incluiu outras três figuras da Independência da Bahia: Joana Angélica, Maria Felipa e João das Botas.
O que diz o Arquivo Nacional: O órgão publica a transcrição do decreto de 20 de agosto de 1823, em que D. Pedro I declara: “Hei por bem permitir-lhe o uso da Insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”. Segundo o Arquivo, o decreto foi registrado na folha 22 do livro 10.
A trajetória de Maria Quitéria lembra que a Independência não se decidiu em um único dia. Na Bahia, ela custou mais de um ano de combates, com gente comum na linha de frente. Muitos desses combatentes, como ela, só ganharam lugar nos livros muito tempo depois.


