História

Cartas e testemunhas: o que se sabe do 7 de setembro de 1822

D. Pedro recebeu cartas do Rio e de Lisboa às margens do Ipiranga por volta das 16h; o resto da cena vem de relatos de testemunhas e da tradição.

Ilustração abstrata em estilo de gravura, com rosácea de linhas douradas finas sobre fundo verde-escuro
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Por volta das 16h de 7 de setembro de 1822, um sábado, dois cavaleiros alcançaram a comitiva do príncipe regente D. Pedro perto do riacho Ipiranga, em São Paulo. Eram o correio Paulo Bregaro e o major Antônio Ramos Cordeiro. Eles traziam cartas do Rio de Janeiro e notícias de Lisboa.

D. Pedro governava o Brasil como regente desde 1821, quando o rei D. João VI voltou a Portugal. Em Lisboa, as Cortes, que eram o parlamento português, queriam reduzir a autonomia do Brasil e exigiam a volta do príncipe. As cartas daquela tarde tratavam justamente desse conflito.

A viagem a São Paulo

D. Pedro saiu da Quinta da Boa Vista, no Rio, em 14 de agosto de 1822. Na véspera, um decreto deixou a princesa Leopoldina à frente do governo durante a ausência dele. O roteiro está reconstituído pela Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

O objetivo era resolver uma crise política na província de São Paulo. Em Lorena, em 18 de agosto, o príncipe dissolveu o governo provisório local. Ele entrou na cidade de São Paulo em 25 de agosto e, em 5 de setembro, desceu a Santos para inspecionar as fortalezas.

Segundo o historiador Rodrigo Trespach, em entrevista à Rádio Senado, a viagem durou cerca de um mês e passou de 1.400 quilômetros. No dia 7, D. Pedro voltava de Santos montado numa mula, e não num cavalo. Ele também sofria de uma crise de disenteria.

As cartas

O correio trazia cartas de Leopoldina, datada de 29 de agosto, e do ministro José Bonifácio. Havia ainda cartas de Lisboa: uma de D. João VI e outra com ordens das Cortes. Elas exigiam a volta do príncipe e a prisão de Bonifácio, segundo a Alesp.

As cartas vindas do Rio incentivavam o rompimento, de acordo com Trespach. Segundo as testemunhas, diante das ordens de Lisboa, D. Pedro decidiu ali mesmo pela separação.

O que é relato e o que é tradição

Não existe ata nem documento oficial assinado naquele local. O que se sabe da cena vem de testemunhas que escreveram suas memórias depois. Uma delas é o padre Belchior Pinheiro de Oliveira, que leu as cartas em voz alta a pedido do príncipe.

Pelo relato do padre, D. Pedro rasgou os papéis e perguntou: “E agora, padre Belchior?”. Outra testemunha, Manuel Marcondes de Oliveira e Melo, comandava a guarda de honra. Ele escreveu que “havia de ser quatro horas da tarde, mais ou menos”. Também registrou que o príncipe arrancou do chapéu o laço azul e branco, cores de Portugal, e gritou “Independência ou Morte!”.

A imagem mais conhecida da cena é o quadro de Pedro Américo, pintado em 1888, 66 anos depois. A tela mostra o príncipe e a comitiva em cavalos imponentes. É uma interpretação artística, não um registro do que aconteceu.

O que veio depois

Naquela noite, no teatro da cidade, D. Pedro usou um distintivo com a frase “Independência ou Morte”. No dia 8, assinou uma proclamação aos paulistas. Em 10 de setembro, partiu de volta para o Rio.

A Independência ainda precisava ser construída. D. Pedro foi aclamado imperador em 12 de outubro de 1822 e coroado em 1º de dezembro. Houve guerra contra tropas portuguesas em várias províncias, e Portugal só reconheceu o novo país em 1825.

O que diz a legislação: A Lei 662, de 6 de abril de 1949, inclui o 7 de setembro entre os feriados nacionais. O Hino Nacional, cuja letra foi oficializada pelo Decreto 15.671, de 1922, abre com o verso “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”. Os dois textos estão no portal de legislação da Presidência da República.

Separar documento de tradição não diminui a data. Mostra que a Independência foi um processo, com cartas, decisões políticas e combates, e não apenas um grito. Entender isso ajuda a ler o 7 de setembro com mais rigor e menos mito.

Fontes

Temas

  • Independência do Brasil
  • Dom Pedro I
  • Ipiranga
  • Bicentenário

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