Civismo

Flávio alterna ataques e recuos às urnas desde 2014, sem fraude comprovada

Em 13 episódios documentados entre 2014 e 2026, oito foram ataques às urnas; a Justiça Eleitoral não comprovou nenhuma fraude.

Publicado em
Leitura
6 min de leitura
Urna eletrônica brasileira em seção eleitoral no segundo turno das eleições de 2022, ao lado de material de votação
Urna eletrônica recolhida ao fim da votação do segundo turno de 2022, em escola do Gama, no Distrito Federal (foto de 30 de outubro de 2022).Foto: Pedro França / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Dez dias depois do primeiro turno de 2022, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi questionado sobre fraude pelo jornal O Globo. Ele respondeu: “Não aconteceu, mas podia ter acontecido”. Ao ser perguntado se estava dizendo que não houve fraude, recuou: “Não sei. É processo de coleta de informações ainda”.

Reunimos 13 episódios documentados entre 2014 e 2026. Oito são ataques às urnas, três misturam negação e suspeita, e dois são recuos. Até hoje, a Justiça Eleitoral não comprovou nenhum caso de fraude nas urnas.

O voto é obrigatório para a maioria dos adultos. Como nenhum candidato teve maioria dos votos válidos no primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio, candidato à Presidência, disputa com Lula o segundo turno, em 25 de outubro.

O tema que volta

A tese vem de 2014. Semanas depois da reeleição de Dilma Rousseff, Flávio disse que “o que nos une é a desconfiança da urna eletrônica”. Em 2018, afirmou que era “impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso” e compartilhou um vídeo manipulado, desmentido pela Justiça Eleitoral. Em 2021, depois de a Câmara rejeitar o voto impresso, escreveu que, sem novas medidas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), “teremos eleições sob suspeita”.

A tabela mostra os anos com episódios: nas fontes consultadas, não há registros em 2015, 2016, 2017, 2019 e 2020. Desde 2021, todo ano tem ao menos um caso, como a coautoria, em 2023, de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) de voto impresso. Em 2022, foram três episódios; um deles, um vídeo sobre urna no Pará, não teve problema identificado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA). Em 2026, numa conferência conservadora nos Estados Unidos, ele disse que venceria “se os votos forem contados corretamente”.

Desde 2021, todo ano tem ao menos um episódio sobre as urnas Número de episódios documentados por ano, de 2014 a 2026

Ano Episódios
2014 1
2018 2
2021 1
2022 3
2023 1
2024 1
2025 2
2026 2

Fonte: reportagens e notas listadas em Fontes. Contagem: redação.

Ataques, recuos e falas mistas

Classificamos cada episódio como ataque (suspeita sem prova), recuo (afirma confiança ou nega fraude) ou misto (nega a fraude e mantém a dúvida). Pela regra, são oito ataques, três mistos e dois recuos, como mostra a tabela abaixo.

Oito dos 13 episódios sobre as urnas foram ataques Número de episódios por tipo, de 2014 a 2026

Tipo Episódios Exemplo
Ataque 8 Desconfiança da urna eletrônica, em 2014
Misto 3 “Não aconteceu, mas podia ter acontecido”, em 2022
Recuo 2 “Quase zero” de fraude, em 2022

Fonte: reportagens e notas listadas em Fontes. Classificação e contagem: redação.

Os dois recuos são de setembro de 2022, quando disse que a possibilidade de fraude é “quase zero”, e de abril de 2024, quando falou em “página virada”. As falas mistas são mais numerosas: uma em 2022 e duas em 2025. Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Flávio disse “Eu acho que aconteceu? Não acho”. No podcast Flow, afirmou que “a gente nunca vai ter um atestado ali”.

O que dizem as fontes oficiais

Segundo o TSE, a urna é um projeto brasileiro, desenvolvido por servidores da Justiça Eleitoral com a comunidade técnico-científica, e não é conectada à internet. O tribunal também diz que a empresa venezuelana Smartmatic, citada por Flávio, nunca forneceu urnas nem programas para eleições brasileiras. Em 21 de julho de 2026, numa reunião com embaixadores em Brasília, ele repetiu a ligação entre as máquinas e a empresa.

Em 8 de outubro, o TSE determinou, por unanimidade, a retirada de três publicações de Flávio no X, feitas em maio. Duas associavam Lula a facções criminosas, sem provas mínimas, segundo a maioria dos ministros. A terceira era uma imagem feita com inteligência artificial, sem a identificação exigida pela regra eleitoral.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em nota de sua equipe de pré-campanha, publicada pelo Metrópoles em 22 de julho de 2026, ele reafirma “integral confiança no sistema eleitoral brasileiro”. A nota diz que missões de observação internacional “contribuem para o aperfeiçoamento do processo eleitoral”. Ela não explica a ligação feita com a Smartmatic.

O que isso significa

Os dados mostram um tema recorrente, com falas que oscilam entre suspeita e confiança. Eles não mostram fraude comprovada no sistema eleitoral.

O que segue em aberto é o efeito dessas falas sobre a confiança do eleitor no segundo turno, em 25 de outubro. Os dados disponíveis não medem isso. Quem quiser checar uma afirmação sobre as urnas pode compará-la com as notas e decisões oficiais do TSE.

Como fizemos: Reunimos 13 episódios de falas e atos de Flávio sobre as urnas, de 2014 a 2026, a partir de reportagens listadas em Fontes e de notas e decisões do TSE, acessadas em 21/10/2026. Cada episódio foi classificado como ataque, recuo ou misto; as contagens valem só para os casos documentados, não para todas as falas. A data do podcast Flow (dezembro de 2025) não foi confirmada por outra fonte. A versão original citava nomes de senadores no debate da CCJ de 2025, que não localizamos em nenhuma outra fonte, e por isso eles foram retirados. Os dados não medem a confiança dos eleitores nas urnas, e a decisão do TSE de 8 de outubro foi conferida pela reportagem do Congresso em Foco, já que a página oficial não abriu no nosso acesso.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que os recuos eram tão frequentes quanto os ataques, e que o TSE removeu as publicações por “falta de base factual”. A contagem mostra oito ataques e dois recuos, e a decisão se baseou em “sem provas mínimas” e na falta de identificação do uso de inteligência artificial. A versão anterior também dizia que a urna é gerida inteiramente pela Justiça Eleitoral; o TSE descreve um projeto desenvolvido por servidores da Justiça Eleitoral em parceria com a comunidade técnico-científica.

Fontes

Temas

  • Eleições 2026
  • Urna Eletrônica
  • Justiça Eleitoral
  • Democracia

Wanderson Cerqueira

Repórter de Efemérides

Cobre efemérides para o Revista 7 de Setembro.

Viu um erro nesta reportagem? Avise a redação.