Opinião

Julgar o passado com os olhos de hoje empobrece a história

Entender o contexto de uma época não absolve ninguém; mostra o que cada personagem podia ver e escolher e o que de fato escolheu, com régua justa.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista 7 de Setembro.

Ilustração abstrata em estilo de gravura, com rosácea de linhas douradas finas sobre fundo vinho
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em 24 de julho de 2021, um grupo ateou fogo a pneus na base da estátua do bandeirante Borba Gato, em Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Segundo a Agência Brasil, o grupo Revolução Periférica assumiu a ação. O motivo alegado era o papel dos bandeirantes na perseguição a indígenas e negros.

O episódio reacendeu uma pergunta que vale para todo o país. Como tratar personagens que fizeram coisas que hoje condenamos? Minha resposta é simples: primeiro, entendê-los. Julgar sem entender é mais fácil, mas ensina menos.

O pecado do anacronismo

Anacronismo é atribuir a uma época ideias, valores ou palavras de outra. O historiador francês Lucien Febvre chamou esse erro de “pecado dos pecados”. Não por acaso: quem lê o passado com as lentes do presente acaba vendo apenas o próprio reflexo.

Pense em José Bonifácio, em Caxias ou em D. Pedro I. Todos viveram numa sociedade escravista, em que a escravidão era legal e central para a economia. Cobrar deles as convicções de um cidadão de 2026 apaga o que mais interessa: o que era possível pensar e fazer naquele tempo.

Contexto não é absolvição

Entender o contexto não é passar pano. É quase o contrário. O contexto revela também quem discordava na própria época, e isso torna o julgamento mais exigente.

Em 1823, por exemplo, José Bonifácio redigiu uma proposta de fim gradual do tráfico e da escravidão. A ideia era minoritária entre os políticos do Império, mas existia. Saber disso permite medir as escolhas de cada um com a régua da época, e não com a nossa.

O historiador Marc Bloch escreveu que uma palavra domina o trabalho do historiador: “compreender”. Ele criticava quem transforma o estudo do passado num tribunal de heróis e vilões. O tribunal dá sentenças; a história dá explicações.

O risco na sala de aula

Há também um risco prático. Quando a pergunta “por que agiram assim?” é trocada por “eram bons ou maus?”, o estudante deixa de aprender. Ele deixa de entender poder, economia, guerra e sociedade. Sobra uma lista de pessoas para amar ou odiar.

Essa lista, além disso, muda conforme o humor de cada geração. Heróis viram vilões e voltam a ser heróis. Quem aprendeu apenas o veredito fica sem defesa quando o veredito muda. Quem aprendeu o contexto consegue pensar por conta própria.

O que dizem os críticos: Quem defende rever homenagens argumenta que uma estátua ou um nome de rua não é a história em si, mas uma escolha do presente sobre quem merece honra pública. Para essa corrente, rediscutir essas escolhas é um debate democrático legítimo. Ele pode incluir placas explicativas, novos monumentos e mudanças de nome, sem apagar o passado dos livros.

O argumento dos críticos tem força, e decidir quem merece estátua cabe à sociedade. Mas a sala de aula e o livro de história têm outra tarefa. Ali, o passado precisa ser explicado antes de ser julgado. E, quando for julgado, que seja com o máximo de informação, incluindo a de quem pensava diferente na época.

Fontes

Temas

  • Anacronismo
  • Memória
  • Ensino de História
  • Monumentos

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